segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Glauco e Ada

Gosta de deitar-se logo após o banho ainda um pouco molhada e com a toalha úmida. O cheiro do final da tarde é o mais doce. Ou é a brisa? Sente o friozinho com o vento fraco que bate em seu corpo úmido como rápidos e deliciosos calafrios na pele onde a toalha não lhe cobre. Quanto mais estática mais sente os pequenos movimentos em volta, o som devagar das coisas. O lençol, o shampoo, a luz da hora de um amarelo envelhecido, tudo lhe agrada o corpo e o espírito nessa hora. Olha o padrão de pequenos lírios que se repete no lençol mas não pensa em nada, até que tudo vai se misturando, o perfume, a brisa, a pele que arrepia, os lírios que começam a embaçar. Adormece calmamente sentindo-se tão livre e protegida pela paz e silêncio do final de tarde.

Sem nunca poder estar em casa antes das sete da noite, Glauco chega do trabalho com a costumeira satisfação e às vezes até sentindo-se realmente feliz. Não é raro que ainda a encontre cochilando no quarto. Alheio ao que talvez sejam os mais sinceros momentos de felicidade de sua esposa como também a tudo mais que lhe atormenta ou conforta a alma, fica feliz quando a encontra dormindo. Às ocultas horas de felicidade de Ada seguem as dele, quando lhe contempla o sono e se sente a razão daquela paz. Como é linda! Um anjo dormindo!
Puro deleite estético. A pele lisa e clara de Ada, macia como a própria seda, não importa onde coberta, se coberta, seda e pele. Dos pequenos pés, seda até os joelhos, alto das coxas, mais seda à cintura onde o tecido escorria em dobras em seu leito, os braços finos que subiam e desciam lentamente, como os seios também se moviam com sua respiração.

Ada dorme tranquila enquanto Glauco sonha acordado. Só se entendem dormindo, sonham pelo o outro o sonho ignorado. Possuem um bem-querer tão grande um pelo o outro que atropelam os limites de viver esse sentimento.

Ada acorda mas permanece deitada por mais uns minutos. Sente novamente os perfumes. Da noite e dos seus cabelos que secaram de forma desorganizada enquanto dormia. Não demora muito a recobrar a circunstância rotineira. Glauco já está em casa. Cansado do trabalho deve estar. Não me importaria que viesse sujo do dia. Que deitasse ao meu lado, me acordasse inevitavelmente. Com olhos vidrados, com a roupa da rua, que suas mãos invadissem todo o sagrado perfurmado, meus cabelos recém-lavados, meu corpo, os leçóis e os lírios, me tomasse tudo. Imaculada, Ada sentia que toda aquela proteção era ilegítima. Sentia desejo de pagar.

Dado o encontro Glauco não consegue encarar Ada. Ela prepara as coisas para o jantar, abre as vidraças do terraço, acende as luzes. Glauco vai se desfazendo do dia de trabalho, tira o paletó, descança a maleta, a correspondência, suspira alto o cansaço do dia enquanto vez ou outra busca Ada passando com seu vestido de tecido fino que frouxo vai espalhando perfume na casa inteira. O problema é que ela é muito bonita. Sente-se injusto. Faz de tudo para que ela não sofra por seus caprichos. Sente-se feliz e justo porque a contempla em segredo. Alimenta fantasias mas condena a sua vaidade, Glauco sente culpa antecipada. Resignava-se sempre. Pensava no bom que já tinha e no mais, sonhava entrar nos sonhos vespertinos de Ada. Trabalhava cada vez mais duro e com isso o prazer daquelas horas era legitimado. Amava Ada.

No jantar não trocaram muitas palavras que não as mesmas de sempre. As suas insatisfações não pertubavam a felicidade que sentiam por estarem juntos. Sobrava amor para além do contido. E Ada seguia guardando seus sonhos enquanto Glauco a guardava com tudo, com os seus sonhos e os sonhos dela.