terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Dr. Jekyll e Mr. Hyde

Mal resfriara, abriu-a com impaciência. A semana inteira à distância para aumentar o brilho desse momento. A primeira taça traz a feliz promessa do início. A noite começou. Sente a dorzinha fina nas bochechas provocada pelo primeiro gole. Deciliosos beliscões invisíveis. Ai, como essa música é bela! Será que ainda não havia reparado em tamanha genialidade? Poucos ultrapassam o limite da sensibilidade comum, talvez eu possa compor algo assim também. Algo para a beleza da vida e para Marília. O mundo das coisas bonitas, da sensibilidade e do meu amor por Marília. Definitivamente isso tem mais importância que a agenda inteira da semana. Mais uma taça. Agora a temperatura está ideal e a partir de então a impressão da linearidade do sabor. Vou por uma segunda garrafa pra resfriar. Essa semana farei tudo diferente. Quebrar a rotina como fazem os entendedores da vida. Os gênios, os melhores poetas e escritores. Farei com que meus compromissos sejam desmarcados, um dia só. Posso ligar pra Marília. Tenho agora a razão dos sapientes ao meu lado. Sinto-me no paraíso dos seguros. Ela não poderá negar. Não será preciso muitos argumentos, está tão claro! Ah, minha querida, se soubesses como te amo! Mas como poderia se até então só mostrara o falso de mim, um eu irreal ou pelo menos a parte menos importante de minha existência. Ah, que incômodo sentimento saber que ela é somente conhecedora do que em mim há de mais desinteressante. Um metódico e comedido médico. Reservado, de uma serenidade quase arrogante, higiênico e extremamente competente. Não! Sinto uma espécie de agressão, injustiça cometida por mim mesmo, agonia de desfazer esse mal entendido. Na próxima consulta será bem diferente. Mostrarei que também sou paixão. Que tenho outra voz, outro olhar. Tocarei seu rosto, seus cabelos. Quebrarei todas as constantes possíveis. Será delicioso sentir seus olhos surpresos e felizes por sua descoberta. Devo ser direto. Seguro de meus atos e intenções. Uma mulher como ela certamente gostará de um homem que tome as rédeas da situação, que não lhe dê tempo para refletir. Estou ansioso. Essa segunda garrafa parece ainda mais saborosa. Como é bom poder repensar tantas vezes como será amanhã. Como será finalmente meu grande dia com Marília. Acho que nem estou tão ansioso assim. Delícia estar aqui agora pensando nela, em como vai ser. Ainda bem que é domingo. Amanhã. Sinto um entusiasmo atlético, estou ótimo! Por que complicamos tanto quando tudo é tão simples? Vale a pena mesmo essa vida, tão linda! Acho que ficarei acordado até amanhecer. Faz tanto tempo que não ouvia essa música. Suave os sons e cheiros da madrugada. Talvez deva dormir um pouco. Provavelmente acordarei bem disposto. Terei sonhos felizes com certeza. Amanhã, Marília. Amanhã continuarei a viver essa realdidade de hoje. Não permitirei que essa atmosfera arrefeça, a única forma inteligente de viver o mundo. O sentimento. A sensibilidade. Amanhã...Dr. Jekill acordara na mesma hora de sempre, o mesmo banho demorado e meticuloso, a falta de apetite matinal usual, passou a vista no jornal, checou os e-mails e foi para o consultório. Antes, colocou o lixo nos depósitos seletivos do prédio. No de vidros, três garrafas vazias de vinho.

3 comentários:

Fred Rique disse...

Correndo o risco de parecer repetitivo...
Maravilhoso !
Ah, e não se culpe se eu deixar de escrever o meu blog, ok.

Anônimo disse...

Vê só, sem condecendência: isso aqui está muito bom! Muito bom mesmo.
Poderia falar sobre alguns detalhes, mas seria difícil... O mais importante é o resumo: esse texto está muito bem feito.
Valeu!

Anônimo disse...

Bom texto.
Esse tipo de narrativa - monólogo interior - (que Virgínia Wolff é grande expoente) pode ser uma coisa bem feminina, doce. Assim como essa sua narrativa é muito feminina. Não sei porque o personagem é masculino.