terça-feira, 7 de outubro de 2008

minha flor


-mas que mania, dona noite, por que insistes?
-porque és insípida, manhã, e ninguém te ouve
-ah, novamente o gosto dos que sonham noturno?
-não inodora! dos que gostam do cheiro das flores.
-ah! falas das flores... celeidoscópio solar!
-verdade de cor, jardins que dormem...
-mas como dormem se quando mais brilham?
-ah, meu lírio, claro como o sol, a noite desabrocham!

e em jardins alheios por passeios noturnos
tive mais sonhos perenes, de todo perfume,
sem nome, sem tempo, sentido somente,
sem vista nem tato, as flores apenas.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

onírico dionisíaco


Tudo começou com um sonho bom. Sonha, acorda, pensa no sonho o dia inteiro. Ah, tive um sonho!

Depois tive outros sonhos e partes de sonhos. Sonhos quebrados, repetidos e repartidos em série.
Vou trabalhar cansado. No retrovisor do carro vejo minha cara de sono. Porra de sonho!
Primeiro turno, não dá pra pensar no almoço. Hã?! Meio da tarde e com óculos ou sem óculos meus olhos ardem, os números se misturam, faço os mesmos cálculos exaustivamente. Se fecho os olhos mais devagar durmo aqui mesmo. Tiro os óculos, cáculos, gravata e pestana. O que foi o que?

Happy hour? Preciso dormir, droga! Não produzi nada. Amanhã terei que chegar mais cedo, refazer os cálculos e preparar a merda da apresentação. Só uns tragos.
Apesar de economista, tempo pra mim nunca foi dinheiro. Demoro bem mais que uma happy hour. Animo um pouco com a conversa de bar, meu sono até que passa, lembro do sonho. Na verdade não se trata do sonho e sim de sonhar. Sonhar o tempo todo. Sonhar e acordar e pensar no sonho e no que não é sonho. Agora mesmo, tô acordado, bem acordado e não estou com sono. É bom! Estar acordado é bom. Mas se não fosse a leve sensação de embriaguez, tanto menos. Aliás, é essa sensação que aproxima a gente do estado do sonho. Quando a gente bebe entra nesse estado onírico dionisíaco, vira artista, poeta, franciscano, pode tudo que quiser. Como num sonho. O bêbado é como um cara que sonha acordado, sabe que é sonho e ainda escreve e dirige o roteiro. Estar bêbado é melhor que estar sonhando!

Volto andando pra casa. Prolongo o prazer da expectativa de uma longa noite de sono. Lembro da conversa do bar. Lembro do sonho. Esqueci os cálculos. Sob minha perspectiva onírica dionisíaca começo a misturar trechos. Minha memória começa a funcionar como um sonho, cheia de quebras. Mas foi um sonho? Preciso descansar. Meu sono voltou.

Vejo minha cara no espelho do banheiro. A mesma cara de sono, só que agora suja de sereno e com um leve sorriso nos lábios. Embriagada e embaçada de sono. Ou de sonho.


Sonho que tá tudo pegando fogo. Queima tudo e a fumaça me sufoca fazendo arder minha garganta. Acordo com sede. Droga de uísque. Merda de sonho! Tô cansado, preciso dormir mais um pouco. Na janela da cozinha minha cara refletida é de sono e sem graça. Idiota!

Sonho com o bar. O que conversei com meu sócio sobre a apresentação do projeto. Conversei? Ou foi só no sonho. Os cálculos não estão prontos. Tudo de cabeça, apresentação genial, clientes convencidos.

Acordo atrasado e novamente cansado. Demoro alguns minutos pra juntar todos os trechos. Hoje pode ser ontem? Sinto como se não tivesse dormido nada. Prefiro nem ver minha cara no espelho. Isso só pode ser um pesadelo. Volto pra cama.

domingo, 29 de junho de 2008

litania de um preso

Depois desses anos todos não sei dizer se realmente nasceu um sentimento entre nós ou se simplesmente nos acostumamos um ao outro. Mas, de uma forma ou outra, sei que agora ele me importa. Talvez se nosso exílio tivesse sido sob outras circunstâncias, quem sabe.

Também não lembro quando comecei a dormir tranquilamente ou mesmo quando consegui não pensar em sua presença, fosse por alguns minutos, pela primeira vez. Os primeiros anos foram realmente difíceis.

Sei que deixamos tudo para trás. Cada vez esqueço mais. De início me exercitava, revia em memória seus nomes, suas fisionomias, gestos, encontros que tivemos. Revia exaustivamente. Repetia a ordem das lembranças. Montava e remontava. Sentia mal se deixava faltar um pedaço de lembrança. Litania de prisioneiro.
Sei que ele tinha as lembranças dele também. E era isso que nos importava no início. Fugíamos de pensar um no outro. Estávamos ali e precisávamos nos ignorar. Não dormia. Não relaxava nunca. O silêncio incomodava mas também não havia assunto.

Estava enlouquecendo com certeza. O problema é pensar tanto, toda hora, pensar, pensar. Pensar no passado. Desespero. E agora? Pensar na saída. Pensar que não tem saída. Não dá para chorar, não consigo chorar. E ele, tem ele aqui o tempo todo. O melhor seria enlouquecer de vez. A loucura talvez me libertasse da angústia.

Não enlouqueço nem páro de pensar. Pensar na angústia. Que solução, por que não enlouqueço? E ele? Ele também é minha angústia ou a representação dela.

Sonho, tenho pesadelos terríveis. Pesadelos às avessas que interrompem a realidade. Momentos de paz que me alimentam a consciência. Preferia a angústia constante, preferia enlouquecer. Acordo e lá está ele.

Esgotado, as vezes penso nele. A litania, agora, virou canção vazia. E ele? Quem é ele? Agora durmo mais, não me incomodo mais tanto com ele. Estamos juntos, ainda bem.

Pesadelo. Acalmo quando acordo e lá está ele.

Agora somos só nós mesmos. Pensamos somente em nós mesmos. Não canto mais as lembranças de fora. Durmo bem mesmo em sua presença. Quando ele está dormindo as vezes sinto medo. Convarsamos muito, mas também quando silenciamos não é mais desconfortável.

Ele é tudo que tenho pra sempre.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

orvalho

-Por que dizes isso para mim?
-Estou falando porque sei. Do fio mais fino do tempo viemos, seremos tudo de mais breve.
-Não acredito em ti!
-Pois não deverias perder tempo lamentando o percurso, acabas por perder o teu fim.
-Fim? Então não vês que nascemos para o ardor das mais fortes paixões?
-Tens razão. Quão breve nos são, a vida e as paixões. O tempo de um suspiro.
-E o perfume, não sentes?
-Ah, como sinto, caro aos mais felizes de vivê-los!
-Então amanhã...
-Amanhã não havemos, há um tempo de luz que jamais verás.
-Quando?
-Por que não ficas quieto e sente o calor? Novamente, terás feito nada além de lamentar.
-E esse calor, o que é?
-Não é bom?
-Gosto. Sinto como se fosse espalhar-me.
-Êxtase liquefaz. Iremos com os primeiros raios mais fortes.
-Como brilha! E como é perfumado!
-Serena!
-Sereno.
-Da beleza da alvorada aos espinhos de nossa mãe.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

lua profética

Dos lábios a mais doce e cruel seiva
sorrisos nervosos do gozo proibido
avisto, precipício as avessas, me atiro
ao alto, profecia de êxtase e agonia.

Teu leite nos enche de lunatices
posso ver-te inteira e desejosa
tua clara face deliciosa
e a máscara negra do precipício

quinta-feira, 15 de maio de 2008

sonho de pó

De sonhos e outras coisas invisíveis.
Quando percebi que estava sendo seguido não tive medo como das outras vezes. Sabia que era ele e sua presença não incomoda mais. Como poderia? Ele já não me é estranho e de alguma forma sempre estivemos juntos.
Todos os dias passo por essa rua. Nunca me entreguei ao cansaço visual da repetição. Para mim ela está sempre diferente. Como quem procura novos detalhes a cada novo encontro com uma obra de arte sempre a vejo diferente. O belo não se cansa de ser explorado, é fonte inesgotável de novas leituras, inclusive para a mais grostesca delas.
A rua. Gosto dela especialmente em dias de chuva como hoje. A chuva reorganiza os elementos da obra. Cada qual em sua devida posição, as bancas de frutas, jornais, a garçonete no café, o barbeiro na barbearia, o guarda de trânsito na chuva mesmo. Além do mais, a chuva limpa a visão do observador assim como o envolve em atmosfera que influencia na leitura da obra. Adoro a chuva. E como já disse, ela nos empurra mais depressa ao nosso destino imediato, sigo então para o canto da tela ao qual pertenço.
Bom dia Rita, um expresso grande, por favor.
Vejo através do vidro da porta que meu amigo parou no fiteiro do outro lado da rua. Tenta se proteger da chuva enquanto fuma um cigarro.
Tenho uma grata sensação de dever cumprido ao tomar uma xícara de café em jejum. Acho na medida certa, se desperta o meu corpo ainda sonolento, não lhe agride a leveza de estado, aos poucos sinto que estou de fato começando um novo dia. Eu bebo o café e ele fuma. Olha em minha direção. Caminho em direção a porta do café. Mesmo quando está às minhas costas sei quando está me mirando, sinto o seu olhar. A presença dele deixa o ambiente com qualquer coisa de mais grave, pesado, como se tudo se movesse mais rapidamente e o volume dos sons aumentasse.
Agora, num pequeno entervalo em que a chuva cessa, a fumaça que sai de sua boca ganha contornos mais nítidos e uma cor branco-cinza mais forte no ar limpo e claro que a chuva deixou. A fumaça equilibra a tela, espaço entre nós, cada qual numa extremidade, com os olhares simétricos. Fumaça espelho que corta as coisas invisíveis.
Após tantas vezes me havendo seguido, acostumei-me ao espelho e, dependendo da luz do dia, faço-me sombra dele ou faz ele minha sombra. Ou ele é sempre sombra, sempre pó.
Os sonhos são atraídos pela energia da mente. Acordados, atraímos pela matéria invisível do coração. No final, as duas coisas estão extremamente ligadas.
Agora que o café cumpriu seu dever é hora de passar a vista no jornal. Hum, melhor mesmo era não ter tomado café hoje, assim as notícias estariam menos consistentes, melhor seria se fosse sonho, notícias de pó.
A manchete fala qualquer coisa sobre uma notícia que já é estampa desde o século dezoito. São números. Estatísticas quase são feitas de pó, estão no campo da abstração, não?
Bom, o que importa na matéria é a velha notícia concreta de que no Brasil 10% detêm 75% da riqueza do país. Isso desde o século 18. Números rígidos. Distribuição disciplinada e linear, essa nossa. Melhor voltar ao pó. Procuro minha sombra.
Ele continua lá, sempre uma mesma distância equilibra nossos corpos. Às vezes me pergunto quem atrai quem ou se há um centro comum. Sei que das coisas invisíveis que o separam de mim muitas lá foram postas por nós mesmos.
Por entre o pó dos sonhos atravesso sempre eu sua direção sem que nada me impeça. Mas é que nos sonhos a matéria invisível que há entre nós dois é fruto de minha imaginação.
Sonho com a matéria do jornal.
Fecho os olhos, faço força e os números ganham vida. Mudo as estampas. O café estimula e a fumaça de minha sombra se embaraça com o papel do jornal. Parece uma tela feita só de nuvens cinzentas onde vez ou outra surge um número que ri de mim. Minha sombra ri também. Acabo cedendo. Rio também.
Não, Rita, só o jornal por favor.
Hoje prefiro a sonolência do corpo para o caso de um encontro com o pó.
No jornal, vejo as notícias um tanto embaçadas. Hoje sem chuva, o sol castiga mais a visão que tenho do outro lado da rua. Atravesso apertando os olhos e fazendo força para encontrá-lo perdido entre a fumaça do seu cigarro. Que tela é essa?
Queria estar dormindo, mas sei que não estou. Nos meus sonhos ele nunca vira pó.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

a valsa


Definitivamente a hora mais prazerosa do dia. Não porque chego ao fim de mais um dia de trabalho e portanto estou livre de obrigações, posso fazer nada ou qualquer coisa, mas porque de fato gosto dos finais de tarde. Em minha cidade melhor hora não há. Recife ganha novas cores no final do dia. E ares, novos ares que conduzem num som mais calmo a correria da cidade. O amarelo escuro parece fazer o movimento mais calmo. Eu ando mais devagar no final da tarde. Moleza solar quando o sol esfria. Parece que o trânsito esquece a corrida para contemplar em silêncio as suas margens.
Cidade de margens, nem sempre nos viramos ao leito.
Carros pisando em ovos. Paramos para ver o movimento da paisagem.
Hum, sei que as cores do dia também mudam no resto do mundo. Mas são outros sóis, são outros mundos. Imagino pólos sem sóis ou sóis que não findam. Sairia do trabalho sem quebras no dia. Preciso sentir a ruptura do tempo. Aí eu páro e recomeço ou mudo a marcha.
Mas voltando aos sóis de minha cidade, às vezes acho que desaceleramos porque hipnotizados.
Vontade de tomar uma cerveja. Deixo outros planos de lado. Tenho que fazer algo importante ainda hoje. Páro para ver as pessoas caminharem lento enquanto bebo uma cerveja. Penso em imagens. São várias tardes em quadrinhos.
Será que gosto mesmo dos finais de tarde ou serão as noites, mérito da continuidade, que lhes tomam o lugar magistralmente?
Não há quebras entre as tardes e as noites. São como dois amantes que se encontram para uma única valsa, frágeis momentos que lhes escapam contrariamente, fio tênue entre a matéria e a não-matéria de um e outro.
Peço outra cerveja, caminho em direção ao marco zero da cidade, espero o momento da dança. Miro o leito da valsa. Penso em tudo que ainda preciso organizar quando chegar em casa. Encosto o corpo no pára-peito que separa praça e rio. Está tudo muito amarelo e se não fosse minha respiração mais forte por conta da caminhada poderia ouvir os passos da valsa.
De olhos fechados penso que logo será noite. Terei que ir para casa. O encontro amoroso. Ele prepara a chegada dela, meia-luz, pede silêncio às margens, ela chega e atrás dela os primeiros holofotes. Não demora muito e já se vão os amantes. Resta outa luz. Resta a saudade do breve, o prestes a acontecer. Nós restamos sentindo, como penetras, o perfume de um baile que não é nosso. Nos convidamos. Noites iluminadas em quadrinhos.
Lembro-me da cerveja que esquentara enquanto trocada pelo espetáculo. A próxima sorvo em goles rápidos. As pessoas voltam a caminhar depressa. Costas às margens. Apresso-me conforme. Tenho poucas horas para arrumar tudo antes que meu vôo parta.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

estúpida permanência

Agora sim, acabou pra mim, continua pra ti.
Mas antes disso tive que suportar íngremes dias escalando as horas compridas com pensamentos repetitivos. Ah, mas quando perdi o controle foi um alívio!
Agora está certo, o tão nobre que tinha acabou pra mim, o trivial que sempre quererás continua pra ti.
O que mais tenho a perder se chego ao limite? O esgotamento nos paraliza. Arrefeceram os pensamentos. Os sons misteriosos do silêncio das horas agora estão mais harmoniosos. Depois que perdi o controle me fiz satisfeita, passiva ao tempo.
Deixo agora todo o desprendimento de tudo que tinha pois desprendo-me de ti. E tu, continuas preso ao mesmo desejo vazio, supérfluo linear que agora rompi.
O amor que sente, o amor que pensa, esgotaram-se batidas e tentativas, invisíveis e palpáveis. A mim não importa mais tudo que tanto me importou. A ti, que sempre importou pouco, te importa agora mais.
Depois do alívio que veio da queda, passos calmos e firmes, batidas compassadas. A ti, ofereço as costas, não há palavras nem restos do muito que havia em mim. E tu, permaneces no lamento, litania ignorada, desejos medíocres não mais correspondidos. Adeus.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

telepatinha


Desde criança Sônia já praticava a telepatia. Sonhava alerta no jardim de sua casa. Amiguinhos telepatas. Joaninhas, borboletas, formigas, lagartas, bichos da terra, até as paquinhas que moravam debaixo das pedras. Conversas vespertinas com cheiro de tera molhada.
Já vooooou!
A mãe não era telepata.
Volto já, meus amigos. Maravilhoso o mundo de vocês. Quase sempre não se fazem perceber.
Tic-tac, musiquinha que dá sono. Na cozinha com minha mãe nunca ouço o que ela fala. Tic-tac, meus olhos ardem. A conversa com o relógio dá sono.
Quando estou no jardim não penso nas horas. Na escola eu penso no jardim.
Tô chegando...
De noite que está tudo silencioso é quando gosto mais. Penso do meu quarto e começo a conversar. Levanto as pedras e elas estão lá. Também tem os fantasmas que são muito telepatas. Falam, falam e falam. Deixa falar. Aí, converso com o relógio, tic-tac, tic e o meu sono chega logo.
Aaai, difícil de acordar! Mãe, só mais um poquinho, um tiquinho de nada, vai!
Não adianta, a mãe não é telepata.
Na minha escola tem uma santa com quem eu gosto muito de falar. Mesmo quando passo por ela fazendo de conta que não a vejo tenho que voltar. Azulzinha e sorridente, não dá pra disfarçar, fico então a conversar. Na minha escola tem também muitas pinturas, guarda-chuvas, lancheiras, cadeiras, quadro, professora, corredor, recreio, até jardim tem. Penso novamente no jardim da minha casa. Mas nem tudo tem voz. Os meninos falam muito alto. O relógio do colégio não fala.
Humm, adivinha o que estou pensando agora...
Sei lá, você só pensa em besteira.
Penso nada!
Pensa sim!
Eu sei o que você está pensando, quer ver?
Meu irmão é mais velho do que eu. Ele é bobo, não gosta do jardim, mas eu gosto muito dele. Ele é bonzinho comigo e acho até que converso com ele quando estamos dormindo.
Tá certo, eu sei o que você está pensando.
O que?
Em nada.
Como assim, em nada? Não se pensa em nada!
Tá vendo! Agora você está pensando em nada, se está falando é porque tá pensando agorinha mesmo.
Assim não vale!
Irmão telepatinha. Eu sei que é ele que manda calado os fatasmas falantes irem embora. Melhor assim porque euzinha não dou conversa pra esses assombrosos. Fico caladinha da silva!
Não sei, acho que quando pensamos igual ao outro viramos telepatas. Por isso estamos unidos. É isso que une a gente. Aí a gente gosta do outro, porque o outro gosta das coisas como a gente. É assim com meu pai e minha mãe. Eles dizem que se amam. Amor telepático!
O relógio gosta só do tempo. Gosta mas não tem medo. Conversa com ele o tempo todo. Tic-tac, tic-tac...eles gostam da mesma coisa. Eu fico com sono toda hora.
As meninas do colégio dizem que falo pouco. Ué, mas eu penso tanto! Penso falando e falo com o pensamento.
Tão bonzinhos meus amiguinhos do jardim! São os mais lindos dos mais lindos! Amor telepático!
Quando eu crescer quero ser viajante. Procurar no mundo inteirinho amores e mais amores...

terça-feira, 25 de março de 2008

o velho e as laranjas


Separei um coletivo de coisas pra levar, tudo inútil. Fica tudo. Essas necessidades que inventamos por aqui, lá não fazem o menor sentido. Bagagem inútil, vergonha. Gosto que me olhem nos olhos. Alguns olhares carregam a tristeza do mundo inteiro, me tira o ar mirar esses olhos. Para não derramar o gelo que me vem n'alma preciso do toque que reprime o choro, comigo é o oposto. Gosto de abraçar as pessoas.
É madrugada um pouco fria, sinto um desejo enorme de tocar a face deste homem um pouco velho, sozinho e sem nada que passa por mim. Eu vi seus olhos. Gelou minh'alma. Dou um longo suspiro fechando os olhos pra não derramar o gelo. Queria tocar sua face mirando seus olhos. Cansados e tristes. Olhos de velho. Quando vejo um velho lembro do velho Murilo.
Meu velho, Murilo velho, tem os olhos tristes, cansados e velhos. Sempre toco seu rosto, às vezes derramo por ele, às vezes com muita pena de mim por não ser ele, por não carregar toda a tristeza do mundo em meus olhos. Sinto pena de mim por ter pena dele. Dispenso a bagagem pra ver Murilo, seus olhos me matariam. É para lá que estou indo agora.
Velho Murilo mora muito distante de mim. Ele não se importa de viver distante. Distante de onde? Agoniam-me questões de tempo e espaço, preocupações inventadas, os olhos do velho Murilo não entendem. Dirijo o dia inteiro e parte da noite para visitar meu velho uma vez por ano. Vou pensando no cheiro das laranjas e na casa úmida do meu velhinho.
Velho Murilo sorriu a vida inteira, mas seus olhos sempre foram tristes. Quando muito pequena ainda, sentia vontade de tocar seu rosto e lhe encher de carinhos. Nessa época eu não pensava no cheiro das laranjas. Chupava laranjas o dia inteiro e o cheiro delas ficava em mim.
Meu pai era menos velho que o velho Murilo e meus irmãos eram mais velhos do que eu. Todos riam das graças do meu preto velho, menos eu. Ele era capaz de fazer tudo com quase nada. Ágil e criativa nudez da simplicidade.
Ô faquinha pequenininha rodava rápido a laranjinha descascando que nem pião! Depois quer que corte no meio ou quer tampinha que quando termina ainda sobra o laranjão?
O seu anzol era o menorzinho, de se rir pensando em tal peixinho que iria lhe morder...anzolzinho mágico, nervoso e eficiente, imbatível, imã dos peixões mais grandões. Mas o lago nem era grande, era um laguinho de água marrom. Laguinho mágico, imprevisível criador de monstros e bichos de todas as cores. Eu era pequenina e o velho Murilo pescava para mim.
Meu pai falava de coisas sérias com seu Murilo. Os rodapés, os enxertos, os currais, as corais, o gado, o laranjal, a horta e o pomar. Velho Murilo mesmo quando sério sorria e mesmo sorrindo tinha os olhos tristes, tristes e velhos.
Eu ainda era pequenina e o velho Murilo falava sério comigo. Contava das vaquinhas, cantava igual aos passarinhos, fazia cara feia imitando quando perseguia uma cobra do mau, descascava as laranjinhas, do pomar toda fruta me trazia, mas da horta se ria por eu não gostar. Ensinou a tirar minhoca do buraco com um pauzinho, íamos pescar. O seu cavalo era grande, mas aprontava o cavalinho para eu montar. O dia inteirinho o velho Murilo ficava pra lá e pra cá, entre as coisas sérias que meu pai lhe dizia e as outras que vinha me contar.
Já sinto o cheiro das laranjas. Nessa estrada falha de terra de tantos desvios e entradas diferentes nunca precisei me achar. Nunca perdi o caminho. O cheiro e a saudade gostosa das coisas do meu velho sempre me guiaram até lá.
Velho Murilo agora tem os olhos velhos, porém alegres. Está mais velho do que nunca, mas seu sorriso está descansado. Meu velhinho parece aliviado. Ai, que sorriso gostoso, que saudade de quando menina e o tempo era um tempão, numa só tarde éramos índios, caçadores, pescadores e peões. Todo pé dava fruta, toda fruta era doce, a natureza se rendia ao meu velho Murilo que era forte e grande e me protegia, menina e pequena. Hoje me sinto menina e pequena novamente. Tenho vontade de lhe tocar o rosto, mas acho que agora é o oposto. Desvio o olhar. não quero lhe tocar. Velho Murilo não entende meus olhos tristes e sorri novamente.
Meu velho, me diga, só com o cheiro das laranjas como vou te encontrar?

segunda-feira, 17 de março de 2008

êxtase musical

Do lado da cá, entre tantos anônimos, espero as cortinas subirem. Ainda nem começou e já temo pelo seu fim.
Que horas são?
Ah, deliciosa espera! Atraso bem-vindo, se demora a começar mais tarde há de terminar! Apaixonei-me por um músico.
Vai começar, novamente tenta puxar assunto meu vizinho.
Assim me rouba parte do êxtase dessas horas. Prefiro o silêncio. Trancar-me em devaneios, sonhos que pelo menos agora julgo justos para mim. O palco respalda todos os outros mundos que alguns dizem impossíveis, mundos mais felizes e belos, mundos em que a imaginação coreografa, dirige, pinta e borda como quiser.
? Vou apagar meu vizinho do cenário.
Sou uma apaixonada convicta! Pela música e pelo músico. Confesso que não sei o que veio primeiro. Segui a música, mas quando percebi não podia mais perder o músico de vista. Sou funcionária para vê-lo tocar. Passo o dia quase não trabalhando de tanto esperar. Quando ele sai de casa, estou chegando do trabalho e já corro para lhe acompanhar.
Meu vizinho agora fala gratuitamente para me perturbar. Sem virar o rosto, quero que fique claro meu aborrecimento, digo que não concordo. Não, a música não é a melhor invenção do homem. A música nem é invenção do homem! Abuso!
Esse último por causa das palmas resumiu-se a um uuuso. Melhor, uma discussão agora me roubaria a outra parte do êxtase.
O problema são suas mãos. Ágeis namoradas que dançam conscientes do feitiço que podem causar. Instrumentos encantados. Serpentes dançarinas que chocalham hipnotizadas pelo seu tocar. Sorriso zombeteiro, estou apaixonada pelo artista que já não sei mais conceituar. Se é mágico ou dançarino não sei ao certo, mas agora convicta que encantada primeiro pelo músico depois por seu batucar. E ele nem é bailarino, mas posso deixar de ser funcionária para lhe acompanhar.
O danado mudou meu cenário. Agora segura conchinhas do mar. Chocalha, choacalha, namoradas salientes, novamente me faço naja, me balanço em ondas imaginárias, subo ao palco para dançar. Convicta pela música e depois pelo músico.
Muito interessante isso, diz meu vizinho.
Molhado, respondo secamente.
Deita o mar no palco bem devagar e novamente muda de lugar. Apaixonei-me por um zombeteiro, quando ele sorrir, percebo o perigo, em apuros deixo ele zombar.
Vai terminar. As cortinas, minhas cúmplices, marcam a hora em que o deixo e volto a esperar.
Apaixonada convicta. Antes era a música, agora é somente ele. Meu músico.

sábado, 8 de março de 2008

Uda


Resta muito pouco. Não falo do tempo, mas das razões de ser. Hoje, para mim, solidão é não ter mais cúmplices. Não vejo sentido quando me falam da beleza que uma longa vida pode ter por conta das experiências que os velhos passam aos jovens. Eu quero dividir, compartilhar. Onde estão as testemunhas comuns a mim? Meus irmãos morreram. Não gosto de conversar sobre o passado com as pessoas do presente. Seria bom reviver muitas coisas durante uma tarde inteira numa conversa com os amigos. Tocar juntos. Falar do trabalho e dos filhos. Lembrar a primeira serenata...Meus amigos morreram. A primeira serenata nem foi para Uda, minha querida Uda. A última cúmplice. As lembranças, não interessa se boas, são cruéis. Sorrisos ansiosos por um bom conto do passado, egoístas! Vivam suas vidas! Eu gosto de conversar com Uda mas não falamos muito. Uma irmã querida costumava vir sempre. Pode-se estar no presente quando em companhia de alguém que viveu o mesmo passado que a gente. Ela nunca mais veio. Testemunha apagada. Ô Uda, vamos! Já estou pronto. Todas as tardes vamos juntos à missa. Acho que espero o dia inteiro pelo fim da tarde. A caminhada até a praça nos pertence. Uma realidade autêntica. Quase setenta anos juntos. Juntos à praça! Uda, essa camisa é a mesma de ontem, Alice me trouxe duas novas ontem. Alice é uma de minhas filhas. Tenho quatro. Não sei porque Uda agora inventou de se fazer de lesa. Deve achar engraçado encenar todo esse esquecimento só para irritar. Como eu disse, gosto muito da caminhada vespertina rotineira. Passo por casas e lembro de pessoas, lembro de fatos. Lembro tranquilo, pois ela entende do que falo, ela sabe das casas, sabe também das pessoas. A história das coisas é importante. Ela sabe. Mas nos últimos meses não falamos muito. Tem algo de melancolia em minha Uda, está cansada de nossas conversas, prefere não lembrar e até finge que não se lembra. Mas também devo dizer. Ô Uda, não se reconhece mais esse bairro, nem as pessoas e as casas quase todas já são outras. O que mais amo em minha Uda é que ela está sempre sorrindo. Sorriso gostoso. Sorriso cantado, parece marchinha de carnaval. Não há uma filha sequer ou neta herdeira da serenidade de minha Uda. Que remédio é este que você está tomando? Não vai tomar nada! Eu sou médico, portanto eu mesmo receitaria algo se precisasse. Você não tem nada, está ótima. Isso são manias dessas meninas. Minhas filhas acham que não percebo esse alvoroço todo. Teimam em levar minha Uda pra lá e pra cá, especialista disso e daquilo, é isso que lhe está fazendo mal. É por isso que anda meio assim, é só chateação. Acaba que nunca mais cuidou de suas rosas ou cantou suas marchinhas preferidas. O jardim também morreu e a terra seca não me diz nada. Tenho medo que minha casa crie vontade própria e mude também. O cerco se fecha. Mutantes sorridentes. Mas eu também não sei para que servem essas pílulas! Eu tomei pílulas? Não fui eu! Foi?! Eu exerci a medicina durante toda a vida. Hoje ela não está mais em mim. Meus pacientes quase todos já se foram. Mas espreito tudo e guardo o que acho calado. Mas com minha Uda não permito! Ô Uda, meu Deus, não tome essas coisas, vá se arrumar, deixe de conversas e não me venha com esquecimentos que você não está gagá! Eu não posso com as coisas do mundo de hoje. Quem meus netos pensam que são? O jornal nacional parece mais o nacional de Marte. De novo a solidão. Penso que a loucura é quando não há mais testemunhas que confirmem as suas lembranças. Junto com a lucidez de Uda vai minha última possibilidade de compreensão. Novamente às conversas egoístas do mundo sobrenatural. Melhor cuidar dos passarinhos. O bom seria ter passarinhos desde a manhã até a hora da missa. Uda agora só canta. Tento pensar que canta as marchinhas intencionada de algo. Canta por nada. Canta durante a caminhada à praça. E quando não está cantando olha para o nada. Seguro forte sua mão, lhe abraço apertado, agora seu sorriso me assusta, peço, peço a minha companheira de vida: por favor não me deixe só!

terça-feira, 4 de março de 2008

paralelepípedos


Encontrei o poeta sozinho numa madrugada de começo de semana. As madrugadas da segunda ou terça têm um sabor peculiar, uma euforia proporcionada pelo sentimento de transgressão. Ou vai ver que não era nada disso, eu já havia bebido um bocadinho e ELE era o poeta. Mas poeta sozinho pela noite é mais normal que surfista tomando açaí na praia. Mas calma. A princípio ele não era poeta, nem era nada. Estava lá e pronto. E eu estava um pouco bêbada e achei que ele era um pintor ou coisa assim. É que estávamos na rua. Uma rua de paralelepípedos molhados. Ou vi isso num filme? Já notou que as ruas sempre estão molhadas nos filmes? Acho lindo isso, até porque aqui tá sempre seco. Mas nessa noite estava molhado. Sei disso porque as luzes dos postes, que estavam especialmente amarelas, estavam brilhando no chão molhado. Ah, parecia pintura...ou filme! A música eu acho que não lembro. Sei lá, essa coisa de memória seletiva, a música era ruim. E tive medo quando pensei que poderia ele ser um fantasma, um fantasma solitário de um grande artista de outrora...opa, mas fantasma não fuma! Ou fuma? E também estava sozinha, preferi achar que não. Ele fuma e deve ser filósofo. Acho que está tarde. Com certeza deveria ir embora. Não consigo ouvir essa música! Mas o que será que ele faz afinal? É curioso como se comporta o ser solitário. Posso com um certo ar arrogante: humm, estou aqui sozinha tomando um drink e não preciso de ninguém, ou algo como: até Buda invejaria tamanha serenidade! Ou posso estar com a maior cara de concentração de cirurgião enquanto me pergunto o que danado aquele outro solitário lá faz quando não está triste assim. Mas que será, que será...será que pensa em nada como eu? Calculo o consumo da cerveja de forma que beba rápido os primeiros dois terços e assim não esteja nunca quente. Um doido reconhece outro. É um triste! Diz, poetinha, já que olhas tanto para mim, és por acaso oftalmo? Professor? Não sabe? Ah, vê se me esquece! Já é tão madrugada que está perdendo a graça transviada, vou projetar a partida. Queria ser pintor para guardar as madrugadas. Retrataria essa noite com todas as luzes, paralelepípedos molhados de amarelo e pessoas desconhecidas, menos o meu companheiro solitário, pois como explicaria sua presença em meu quadro? Sabe de uma coisa, obsessão de bêbado é o cúmulo da falta de criatividade e amanhã ainda perco o dobro de tempo tentando me perdoar, espero que o triste reconheça o outro de fato. A conta ao garçom que pergunta o meu nome. Prazer, o seu? Não entendi, mas um educado reconhece o outro. Antes de ir, junto ao troco um pequeno bilhete. Ele era, de fato, poeta. E também falava de solidão:




"Ana

De um ponto
em que não se ia
nada mais
que solidão,
que agonia,
havia luz
e luz acendia,
como se incendeia
mil areias
sobre mim.
Sobre as veias
soterradas
de um coração
com teias,

de um ponto
que não engana:
ana."



Para meu amigo, poeta desconhecido. Muito obrigada.






sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Abajur



Dorme, dorme, dorme, ai que quero dormir de uma vez! Como é possível minha voz de choro quando sequer tô falando de verdade? Só tô pensando, ora bolas! No meu medo. Meu pensamento tem voz de choro. Nesse medo de todas as noites. Vou pedir a meu pai que deite comigo. Eu demoro e fico agoniada. Seguro sua mão e fico agoniada porque sei que ele não vai esperar até sempre. Eu sempre demoro a dormir. A culpa é da janela do meu quarto que balança. Faz cineminha das coisas da rua na parede. Das luzezinhas, milhões de luzezinhas coloridas que piscam quando pisco os olhos. Da cama que tem vazio embaixo. De tudo. Somente de manhã faço as pazes com meu quarto. A noite fica tudo estranho e o chato mesmo é ser a última a dormir. Pai, quando é que tio Alberto vem nos visitar? Quando? É um alívio quando tem visita a noite. Eles ficam até tarde conversando na sala e não dormem antes de mim. Ou quando é final de semana. Os pais dormem mais tarde nos sábados. Hein pai? Ele vem quando? Não sei filhota, acho que na sexta feira. Quem é que está fazendo oito aninhos na sexta feira, hã? Aninhos não, anões. Estou ficando uma velha medrosa. Aniversário não vale. Queria um convidado por noite. Ei! Ainda não dormi! Ele pensa que sou boba mas eu sei que ele me engana sempre. E ainda desliga o abajur antes de sair. Nem ligo. Rapidinho chega amanhã quando durmo. Agora estou mais velha e meu pai viajou. Eu gosto de suas viagens. Ele sempre traz um presente bonito pra mim e eu posso dormir com minha mãe todos os dias. Quando durmo com minha mãe provoco as luzezinhas de propósito. Pisco os olhos com força como desafio. Mas fico com pena logo em seguida pois elas parecem mais tristes e fraquinhas quando não tenho medo. Assim não tem graça. Vou pensar em outra coisa. Gosto de pensar nas coisas da escola. O ano tá terminando e o melhor é poder levar todo o material pra casa. Tem tanta coisa na minha pasta. Todos os meus trabalhos. Depois minha mãe guarda e não adianta nada. Mas também as férias demoram muito e fico com saudades da escola. Esse ano, vou sentir saudades de Vinícius, o menino mais bonito da minha sala. Vinícius é ótimo pra pensar antes de dormir. E aí não pode ser pensamento de choro. Mas ele é pequeno e nunca pode ser meu par nas festinhas da escola. Será que ele vai crescer nas férias? Amanhã eu penso nisso. Não disse? Minha mãe já guardou minha pasta. Nas férias eu viajo e é maravilhoso. Na casa dos meus avós eu não tenho medo de nada. Não durmo no meu quarto! O quarto da minha prima é tão diferente do meu, queria morar aqui. Nas férias tenho mais tempo pra pensar em Vinícius antes de dormir. Ai, que saudade da escola. Minha mãe encapa meus livros novos e eu ajudo. Quando chego de viagem gosto do cheirinho da minha casa. Depois fica igual. Vinícius não cresceu mas eu contei minha viagem pra ele mesmo assim. Pai, me ensina matemática amanhã? Acho engraçado quando meu pai vira professor. A letra dele fica horrível no quadro mas ele sabe toda a matemática do mundo. Sempre sabe. Outra noite, tentei provocar as luzezinhas mas elas não apareceram. Pensei em outras coisas. Pai? Desliga o abajur quando sair, tô com sono!

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Dr. Jekyll e Mr. Hyde

Mal resfriara, abriu-a com impaciência. A semana inteira à distância para aumentar o brilho desse momento. A primeira taça traz a feliz promessa do início. A noite começou. Sente a dorzinha fina nas bochechas provocada pelo primeiro gole. Deciliosos beliscões invisíveis. Ai, como essa música é bela! Será que ainda não havia reparado em tamanha genialidade? Poucos ultrapassam o limite da sensibilidade comum, talvez eu possa compor algo assim também. Algo para a beleza da vida e para Marília. O mundo das coisas bonitas, da sensibilidade e do meu amor por Marília. Definitivamente isso tem mais importância que a agenda inteira da semana. Mais uma taça. Agora a temperatura está ideal e a partir de então a impressão da linearidade do sabor. Vou por uma segunda garrafa pra resfriar. Essa semana farei tudo diferente. Quebrar a rotina como fazem os entendedores da vida. Os gênios, os melhores poetas e escritores. Farei com que meus compromissos sejam desmarcados, um dia só. Posso ligar pra Marília. Tenho agora a razão dos sapientes ao meu lado. Sinto-me no paraíso dos seguros. Ela não poderá negar. Não será preciso muitos argumentos, está tão claro! Ah, minha querida, se soubesses como te amo! Mas como poderia se até então só mostrara o falso de mim, um eu irreal ou pelo menos a parte menos importante de minha existência. Ah, que incômodo sentimento saber que ela é somente conhecedora do que em mim há de mais desinteressante. Um metódico e comedido médico. Reservado, de uma serenidade quase arrogante, higiênico e extremamente competente. Não! Sinto uma espécie de agressão, injustiça cometida por mim mesmo, agonia de desfazer esse mal entendido. Na próxima consulta será bem diferente. Mostrarei que também sou paixão. Que tenho outra voz, outro olhar. Tocarei seu rosto, seus cabelos. Quebrarei todas as constantes possíveis. Será delicioso sentir seus olhos surpresos e felizes por sua descoberta. Devo ser direto. Seguro de meus atos e intenções. Uma mulher como ela certamente gostará de um homem que tome as rédeas da situação, que não lhe dê tempo para refletir. Estou ansioso. Essa segunda garrafa parece ainda mais saborosa. Como é bom poder repensar tantas vezes como será amanhã. Como será finalmente meu grande dia com Marília. Acho que nem estou tão ansioso assim. Delícia estar aqui agora pensando nela, em como vai ser. Ainda bem que é domingo. Amanhã. Sinto um entusiasmo atlético, estou ótimo! Por que complicamos tanto quando tudo é tão simples? Vale a pena mesmo essa vida, tão linda! Acho que ficarei acordado até amanhecer. Faz tanto tempo que não ouvia essa música. Suave os sons e cheiros da madrugada. Talvez deva dormir um pouco. Provavelmente acordarei bem disposto. Terei sonhos felizes com certeza. Amanhã, Marília. Amanhã continuarei a viver essa realdidade de hoje. Não permitirei que essa atmosfera arrefeça, a única forma inteligente de viver o mundo. O sentimento. A sensibilidade. Amanhã...Dr. Jekill acordara na mesma hora de sempre, o mesmo banho demorado e meticuloso, a falta de apetite matinal usual, passou a vista no jornal, checou os e-mails e foi para o consultório. Antes, colocou o lixo nos depósitos seletivos do prédio. No de vidros, três garrafas vazias de vinho.

pra começar


Percebi que tinha muitas coisas. Muitos trecos, objetos inúteis, muito trabalho, muitos dias sem graça, muitos compromissos forçados, muitos amigos chatos e até falsos, muita dor de cabeça, dezenas de comprimidos, centenas de planos frustrados, tantos amores, MIL fantasmas... Resolvi jogar tudo fora, ora bolas! De cada coisa quero nada ou no máximo a unidade. É, o melhor mesmo é viver à retalho. É a lei do espaço, espaço vazio pra ser ocupado. Esvaziar pra encher, se o leitor prefere. Sinto-me vazia e feliz! Pois o oco gera a expectativa e não dizem que a fome é o melhor tempero? Pois então! Sinto a ânsia de experimentar o próximo sabor. Será objeto exclusivo de meu deleite o próximo retalho. Uma cor, um sabor, um café, um cigarro, um livro, um amigo, um jantar, um suspiro, um amor. Os excessos são alimento da loucura, obsessão pra mim é falta de criatividade e escravidão. Nada é sempre o mesmo.
Pois então, são outras impressões e palpites sobre esse nosso mundo concreto e invisível, preto e branco e colorido pelas vistas um tanto míopes de uma pequena romântica tentando convencer os pessimistas. Meu amigo Jorge, o romantismo não morreu!