sexta-feira, 8 de julho de 2011

um convite ao coração selvagem






Mais que uma biografia da escritora, é antes uma sensível interpretação crítica e psicológica de sua obra. Se bem que no caso de Clarice escrita e escritora frequentemente se fundem tamanha peculiaridade do universo único e por que não íntimo que encontramos em sua obra. Clarice foi feita para a literatura, "já criança fabulava", e a literatura foi o alívio para sua inquietude onde pôde estar mais perto do coração selvagem, onde pôde ser Joana e não mais Clarice.






Em Clarice, Benjamin Moser, num trabalho de grande volume de pesquisa e de muita sensibilidade, além de analisar criticamente grande parte da obra da autora, nos faz mergulhar no universo introspectivo lispectoriano tanto da obra quanto da autora, afinal de contas ainda se trata de uma biografia, de maneira que nos deparamos com as epifanias mais clássicas da autora quase como se as estivéssemos compartilhando com a própria Clarice. As correnspondências de Clarice, expostas no livro em grande volume, nos aproximam mais ainda do reconhecimento de toda a essência de sua obra. Reconhecemos suas personagens e suas angústias na própria Clarice e automaticamente ou melhor, psicologicamente relemos sua obra.






Enfim, depois de Moser melhor mesmo é reler Clarice pois como a própria autora dizia, a sua obra ganhava com a releitura!

terça-feira, 4 de maio de 2010

hoje eu vi um mendigo

Partiste.
Com a doçura e o medo da infância,
junto aos porquês e a felicidade do saber.
Senti falta.
Da falta de ar. Das noites absurdas,
do meu mais possível mundo fantástico.
Vais voltar?
Tive a sorte de uma doçura, a de Camila,
"Camila sonha", primeira lição das primeiras letras,
não consigo esquecer!
Partiste.
Meu primeiro amor e meu melhor olhar,
Tive os olhos de Camila arrancados,
Fiquei sem olhar.
Tato infeliz, sem paisagem olho desguiado,
Não te vi?
Partiste, visão?
Não, não consigo esquecer!
Recupero Camila, recupero a visão,
tato pra fora, como antes,
Nunca partiste,
volto a sentir-te.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

pintando meu atelier

"Para mim um quadro tem que ter algo de amável, agradával e lindo, sim, tem que ser lindo. Há demasiadas coisas desagradáveis no mundo, de forma que não é necessário produzir mais."
(Pierre-Auguste Renoir)

- Minha amiga, mas o porquê de tanto silêncio? Sinto falta do conforto de falares por mim...
- Falar por ti? Desde quando?
- Desde sempre. Desde que és tu, e somente tu, que o fazes. Acumulaste uma porção de coisas a dizer que meu coração não me leva ao verbo.
- Desculpa o silêncio. Não tinha palavras. Ou até as tinha, mas melhor mesmo era não dizê-las. Até vi teu sofrimento, não que eu estivesse bem, não! Só não tinha ou não queria dizer palavra.
- Então?
- Esperava a palavra certa. Esperava sentir o belo para te falar do sublime. Ainda estou pensando...
- No que falar?
- Não. Nessa coisa de belo e sublime...uma pintura...
-Quero verbo!
- A gente cria do mesmo jeito! Não é bem criar, não quero parecer cética em relação à alegria de viver. Não é isso! Mas a gente cultiva, entende? E no final das contas a gente pensa em imagens, não deixa de ser pintura!
-E a gente fica feliz, é isso?
- Não necessariamente...sinto...mas também não é impossível. Veja, podemos contemplar e, por assim dizer, viver o gozo da beleza produzida.
- Produzida por quem? Que andaste fazendo durante todo esse longo silêncio?
- Nada! Contemplando um monte de coisa feia! Justamente por isso que digo, nem queria falar, no máximo algumas injúrias...mas tese e antítese, é batata, o arqui-inimigo do grotesco é o nosso tão falado sublime!
- Sei...sublime...
- Tem muito por aí...sério!
- Estás falando, isso é o que importa. Falas, meu coração verborrágico!
- E por acaso o feio precisa de palavras? Falemos do belo! Não estou pintando meu atelier!

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

uma canção

To everything, turn, turn, turn
There is a season, turn, turn, turn
And a time for every purpose under heaven
Eu não sei o tempo dos ventos sem as horas marcadas.
Da natureza do envelhecimento das ondas,
Da volta, elas nada contaram...
Quanto tempo marcaram?
Passa, passa, passaram,
Atraso ou adianto,
nunca alcanço seu tempo.
Talvez, somente, os marinheiros possam ouvir a lua!

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

penumbra

Fiz uma lista das arestas e frestas que te deixavam escapar aos pedaços.
A noite inteira com a cara clara, operária de rédeas e cabresto,
tecendo a alvenaria dos cheios e vazios, sóbria, não sei de quais espaços:
Cheio, Vazia; Vazio, Cheia; mirando os buracos no espaço da viseira.
Viseira estúpida que me guiou por ângulos tão retos e cantos desencontrados,
e a pá que espalhava a massa não cabia na mira do seu holofote quadrado,
Tapei ventos, sussurros e cantos que me enfeitiçavam,
mas acontece que ainda assim quando era dia a cela clareava.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

uma outra coisa

- Finalmente, que queres dizer?
- Já disse, não consigo outras palavras...
- Mas não entendi o que disseste.
- Ah, mas é porque não disse tudo...
- Então fala!
- Estou pensando...como é mesmo que digo isso...eu sei mais ou menos o que é, não tem assim uma forma... como chama?...que agonia!
- mas é o quê, substantivo abstrato?
- Não, não, é bem concreto...tá aqui em minha cabeça... bom, bom...
- É ruim?
- Não...também não sei se é bom...tu não sentes também?
- Ah, e como diabos vou saber!
- Já sei! Ah, agora eu sei...
- Fala logo!
- Não dá. Ainda preciso inventar um nome.

sábado, 6 de junho de 2009

sonhos opacos

sonhos opacos naquele quarto de sobrado
no andar de cima, teto sem forro, deito.
uma luz amarela entre mim e as telhas
a mesma luz que da rua olho em outros quartos
penso nos sonhos alheios e suas camas
saudade de minhas horas, do acalanto das telhas
gosto da luz que não basta, da opacidade do ar,
pensamentos turvos infinitos, opacos
da janela, a minha, a rua opaca
da rua, a janela, de outros, opaca
entre aqui e lá, a opacidade do ar
partículas que criam milhões de formas

veio a chuva
limpou tudo
o que antes era um sonho opaco
agora é a transparência do real.