segunda-feira, 15 de julho de 2019

Teu xaxim

- lembras que te falei que teus olhos eram olhos de xaxim?
- sim, olhos de xaxim...confesso que ainda não compreendi.
- não precisa, suas raizes marrom fibrosas já chegaram até mim...
- como assim?
- nada não...
- meus olhos?
- raizes!
- quê?
- fibrosas!
- ah sim, do xaxim.
- isso. O avesso da erva daninha que se espalha, o enxerto certeiro, sabes?
- talvez saiba, não sei...
- vais saber logo mais em mim.

corredores da estrada

A imagem pode conter: planta e atividades ao ar livre



Aprendi a buscar o conforto nas janelas que acendem pra fora enquanto faço da longa estrada o meu lar.


Aquela luz que acalanta uma outra criança que, como eu antigamente, desconfia de cada canto que não pode enxergar.

A chama amarela que ilumina a leitura, clareia as ceias conjuntas, desvenda as molduras, vista daqui de fora, não me deixa esfriar.

Assim sigo colecionando os calores dos lares corredores dos meus passos, fazendo o medo dos fantasmas do breu do caminho dissipar.

domingo, 7 de julho de 2019

Quando aceitei olhar nos teus olhos


Sementeira essa vida inteira que brota dos teus olhos redondos como dois xaxins,

castanhos e fibrosos,

suspensos e guardados pelas mesmas telhas cuidadosamente empilhadas por mim.

Resta a rega, a poda, a luz do dia e da vida,

pra te fazer brilhar as pupilas e derreter tudo mais em mim.

terça-feira, 2 de julho de 2019

VIII. Sereno

Naqueles dias de beira de estrada, de pausa necessária, o sereno temperava tudo quando amanhecia.
Frágeis horas que filtravam as nossas cabeças naquele pouso sem mobília.
Queria que aquela morada impossível, a ceu aberto, fosse infinita.
Queria a estrada sem despedidas.
Sentia apertar no peito aquilo que não seguiria.
Outras beiras, outros pousos, outros encostamentos. Ficaremos mais um dia.
Pensei em dizer tudo que sentia. Fazer promessas, te segurar forte, me apegar àquela moradia.
Afasia. Da minha boca saíram ideias outras contrárias ao que pretendia.
Das ideias restaram nossos corpos quentes do calor do dia.
Os corpos calaram. Amanhã serenaremos logo cedo, deixando pra trás tudo que foi aquela estadia.

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Simplesmente coração

Não vim aqui pra ter razão, 
até mesmo porque essa nunca me foi convincente.  
Passo os dias, e as noites principalmente, explicando à mente que os sentidos da face têm mais razão. 
Não sei o que seria de mim sem os buracos da cara, 
olhos, ouvidos, boca e nariz, 
a darem vazão às enchentes que vêm de dentro, 
encantamentos.
A mente definitivamente não comporta o que transborda da nascente.
Talvez queira me dominar sorrateiramente, mas hei de ser apenasmente coração. 

sexta-feira, 21 de junho de 2019

VII. Febre

Já tentou diminuir uma febre sem se deixar curar?
Cortar displicentemente o medicamento que afasta a mazela, pausando seu efeito, não se deixando são ou mal por inteiro, mas administrando o que te te faz viver e morrer por dentro?
Assim te envolvo, me afasto, me entrego e te nego, dando pausas àquilo que me consome o corpo e a alma que é pra não deixar escapar, a ti e a mim, ligeiro.
Fico e corro pra equilibrar nossas faces, sublimes e grotescas, gozo e apatia, até o dia em que não tivermos mais anticorpos que nos mantenham vivos um do outro.

terça-feira, 18 de junho de 2019

Players

Tive uma conversa séria comigo mesma e cheguei à conclusão que somos muito diferentes. 
Ninguém cede, ninguém quer ceder, ninguém se entende. 
Pra além da teimosia, temos argumentos sólidos e quentes, cabeça e coração persistentes.
Como num jogo de xadrez com o espelho, nós duas, eu que me xeque, as rainhas que se matem.
Quem se atreve?
Haveremos por um fio tenso enquanto mantivermos o empate técnico.