quarta-feira, 22 de maio de 2019

I. Suspiro


Foi quando mergulhei inteira em ti que pude perceber as horas que param, o tempo da permanência do vôo livre, a subida que supera o espaço físico, o arrepio de quase morte, o eco interno do meu grito vivo.

Foi aí que descobri o anti-tempo, o antídoto para o que nos furta a vida, os sentires todos comprimidos no vácuo doce do nosso fôlego suprimido, o esvaecer de nossa matéria derretida.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

A Cartilha de Camila e Carolina

Consegui fazer as pazes com Camila e Carolina!

Aquela mesma Camila que sempre sonhava no livro das primeiras letras, aquela mesma! O livro dizia "esta é a casa, a casa é de Camila, Camila sonha". Então eu achava que a felicidade podia ser assim, paradinha e sorridente, como a foto da história da menina que sonha em sua casa. E a casa era bonita!

Aí veio a Carolina, que estava nas letras do capítulo adiante, de certo primeiras letras ainda. Era aquela que com seu colar subia a colina. Ah, que linda! Não pude acreditar que lia o que lia. Cores de cal e coral me fizeram corar igual a menina.

Acontece que depois das primeiras letras aceleramos a leitura e perdemos todas as cores e texturas. Passa texto e passa tempo, vamos ficando cinzas e duvidamos se de fato Camila estava sonhando e até esquecemos das cores da colina de Carolina. 

Então resolvi matar as duas. Duplo homicídio, frio e calculado. Matei porque já não podia ser, não dava mais pra sonhar de maneira decidida. Tentei seguir a tal cartilha, mas a vida, quase numa lobotomia, me provou que aquilo não existia, não podia!

Passa tempo e passa texto, delícias e agonias. Sublime e grotesca segue a vida. Aos poucos percebo que do oco das cores outras luzes vibram. Sendo assim, do mar de letras que a vida nos atira, resolvi recortar pequenas tiras coloridas. Imagine que agora eu amo o cinza e sua imensidão, pois ele dá vida ao que lhe é oposição. 

Finalmente retorno às primeira letras! E volto à imensidão. E vou e volto. Pra nunca mais esquecer das cores, dos sonhos, de Carolina e de Camila.



Para meus filhos, Anita e Benício, que me devolvem todas as noites as alegrias e delícias das primeiras letras queridas. 

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Pena e chumbo


Acordei e era tanto peso, mas tanto peso, que mal pude respirar. Pensamentos de chumbo e estômago gelado, demorou um bom tempo até que pudesse levantar.
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O cheiro e a fumaça do café tomaram conta do ar e despertaram os pulmões que até então sofriam pra trabalhar. A primeira xícara serviu pra inalação apenas. A segunda foi para o resto despertar.
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Agora com o corpo desperto o peso fica mais real. Mais exato em medidas. É preciso escrever quilos de frases, arrobas de sentidos.
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Os primeiros sentires do dia são os mais difíceis de arrancar do juízo. Grudam na pele, dão câimbras e tiram o apetite. A terceira xícara de café é pra ocupar o espaço vazio que insiste em gelar.
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O importante é sentir devagar, traduzir as pedras e soltar. O primeiro sentir capturado, alinhavado, fica manso e até bonito. Um quase sorriso.
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Agora eles vêm em blocos, os sentires. Como um britadeira, os trago e os quebro no ar. Escrevo e escrevo mais. Começo então a formigar e sinto calor por todo lugar.
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Vou ficando leve, mas tão leve, que vou deixando de estar. De sentir. Sorrio de todo o peso. Evaporo doce pelo ar.
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#writings #cantora #compositora #singer #arte .

sábado, 13 de outubro de 2018

Lar


Se eu te pedir pra ficar é porque já estás lá. Já arrumei a alma e já alegrei os móveis da sala.
Quando tu chegares vou acordar o amor das coisas todas da casa.
Vou ligar os alecrins e te aquecer com o giro da vitrola.
Depois da mala desfeita repousaremos teus toques e timbres por toda parte.
Vamos cravar sonhos e delírios nos tapetes e nas paredes.
Quando fechares a porta respirarei mais lento pra não deixar teu suspiro escapar.
E quando tudo for nós, espiarei de fora a beleza de ser teu lar.
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Foto: Perla Berwanger

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Jardim de lodo

Meu jardim é todo de lodo.
Relevo que cobre pedras e deita embaixo delas.
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Meu deleite é todo musgo.
Seiva que esmalta a pele e o que toca nela.
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Meu jardim é verde fundo, escuro e denso.
O sol que o toca suave não aquece todo o seu corpo.
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Meu jardim não tem cores nem odores de flores, mas tem cheiro de vida se desmanchando e se alimentando de mais vida.
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#writings #writer #escritos .
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Foto: @perlaberwanger

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Framed room

Naquela sala tinha uma janela que não sabia se me escondia ou se se amostrava com o lá de fora.
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Eu gostava da luzinha que chegava branda, aprumava as arestas, me fazia fechar as pálpebras e me aquietar.
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Luzes, cortinas e cineminha passando por aquela abertura. Eu assisto, platoniando o lá de fora.
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Mas continuo enquadrada pelo frame, claro e escuro, deleite do mais bonito das coisas que param, no quadro de dentro.
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#writings
#writer #escritoresindependentes #blogcafecomleite #recifewriter #foratemer


quarta-feira, 4 de julho de 2018

Lâmina

- o que houve com o afeto que tinhas por mim?

- cansou de se esbarrar no escudo das tuas máscaras...

- não uso máscaras.

- nunca vais admitir!

- sempre fui verdadeiro contigo.

- acreditas mesmo que és todo sagrado. Vejo que tua arrogância não te permite enxergar...

- o quê?

- teus monstros e teus demônios, as tuas ruindades, feiuras, tua face mais humana normal do mal.

- no caso és perfeito tu?

- não ousaria. Não existe perfeição. Meu todo é tão grotesco quanto sublime. Sou feio, mau, mesquinho, invejoso, orgulhoso. E quando menos espero ou desejo, sou luz. Saiba que nossa maldade também nos liberta.

- achava que tinhas amor por mim...

- muito. Amava até o teu lado negado.

- não mais?

- cansei de desfilar no teu Carnaval.
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#writings #literature #literaturaindependente #blogcafecomleite
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Foto: @perlaberwanger