terça-feira, 7 de outubro de 2008

minha flor


-mas que mania, dona noite, por que insistes?
-porque és insípida, manhã, e ninguém te ouve
-ah, novamente o gosto dos que sonham noturno?
-não inodora! dos que gostam do cheiro das flores.
-ah! falas das flores... celeidoscópio solar!
-verdade de cor, jardins que dormem...
-mas como dormem se quando mais brilham?
-ah, meu lírio, claro como o sol, a noite desabrocham!

e em jardins alheios por passeios noturnos
tive mais sonhos perenes, de todo perfume,
sem nome, sem tempo, sentido somente,
sem vista nem tato, as flores apenas.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

onírico dionisíaco


Tudo começou com um sonho bom. Sonha, acorda, pensa no sonho o dia inteiro. Ah, tive um sonho!

Depois tive outros sonhos e partes de sonhos. Sonhos quebrados, repetidos e repartidos em série.
Vou trabalhar cansado. No retrovisor do carro vejo minha cara de sono. Porra de sonho!
Primeiro turno, não dá pra pensar no almoço. Hã?! Meio da tarde e com óculos ou sem óculos meus olhos ardem, os números se misturam, faço os mesmos cálculos exaustivamente. Se fecho os olhos mais devagar durmo aqui mesmo. Tiro os óculos, cáculos, gravata e pestana. O que foi o que?

Happy hour? Preciso dormir, droga! Não produzi nada. Amanhã terei que chegar mais cedo, refazer os cálculos e preparar a merda da apresentação. Só uns tragos.
Apesar de economista, tempo pra mim nunca foi dinheiro. Demoro bem mais que uma happy hour. Animo um pouco com a conversa de bar, meu sono até que passa, lembro do sonho. Na verdade não se trata do sonho e sim de sonhar. Sonhar o tempo todo. Sonhar e acordar e pensar no sonho e no que não é sonho. Agora mesmo, tô acordado, bem acordado e não estou com sono. É bom! Estar acordado é bom. Mas se não fosse a leve sensação de embriaguez, tanto menos. Aliás, é essa sensação que aproxima a gente do estado do sonho. Quando a gente bebe entra nesse estado onírico dionisíaco, vira artista, poeta, franciscano, pode tudo que quiser. Como num sonho. O bêbado é como um cara que sonha acordado, sabe que é sonho e ainda escreve e dirige o roteiro. Estar bêbado é melhor que estar sonhando!

Volto andando pra casa. Prolongo o prazer da expectativa de uma longa noite de sono. Lembro da conversa do bar. Lembro do sonho. Esqueci os cálculos. Sob minha perspectiva onírica dionisíaca começo a misturar trechos. Minha memória começa a funcionar como um sonho, cheia de quebras. Mas foi um sonho? Preciso descansar. Meu sono voltou.

Vejo minha cara no espelho do banheiro. A mesma cara de sono, só que agora suja de sereno e com um leve sorriso nos lábios. Embriagada e embaçada de sono. Ou de sonho.


Sonho que tá tudo pegando fogo. Queima tudo e a fumaça me sufoca fazendo arder minha garganta. Acordo com sede. Droga de uísque. Merda de sonho! Tô cansado, preciso dormir mais um pouco. Na janela da cozinha minha cara refletida é de sono e sem graça. Idiota!

Sonho com o bar. O que conversei com meu sócio sobre a apresentação do projeto. Conversei? Ou foi só no sonho. Os cálculos não estão prontos. Tudo de cabeça, apresentação genial, clientes convencidos.

Acordo atrasado e novamente cansado. Demoro alguns minutos pra juntar todos os trechos. Hoje pode ser ontem? Sinto como se não tivesse dormido nada. Prefiro nem ver minha cara no espelho. Isso só pode ser um pesadelo. Volto pra cama.

domingo, 29 de junho de 2008

litania de um preso

Depois desses anos todos não sei dizer se realmente nasceu um sentimento entre nós ou se simplesmente nos acostumamos um ao outro. Mas, de uma forma ou outra, sei que agora ele me importa. Talvez se nosso exílio tivesse sido sob outras circunstâncias, quem sabe.

Também não lembro quando comecei a dormir tranquilamente ou mesmo quando consegui não pensar em sua presença, fosse por alguns minutos, pela primeira vez. Os primeiros anos foram realmente difíceis.

Sei que deixamos tudo para trás. Cada vez esqueço mais. De início me exercitava, revia em memória seus nomes, suas fisionomias, gestos, encontros que tivemos. Revia exaustivamente. Repetia a ordem das lembranças. Montava e remontava. Sentia mal se deixava faltar um pedaço de lembrança. Litania de prisioneiro.
Sei que ele tinha as lembranças dele também. E era isso que nos importava no início. Fugíamos de pensar um no outro. Estávamos ali e precisávamos nos ignorar. Não dormia. Não relaxava nunca. O silêncio incomodava mas também não havia assunto.

Estava enlouquecendo com certeza. O problema é pensar tanto, toda hora, pensar, pensar. Pensar no passado. Desespero. E agora? Pensar na saída. Pensar que não tem saída. Não dá para chorar, não consigo chorar. E ele, tem ele aqui o tempo todo. O melhor seria enlouquecer de vez. A loucura talvez me libertasse da angústia.

Não enlouqueço nem paro de pensar. Pensar na angústia. Que solução, por que não enlouqueço? E ele? Ele também é minha angústia ou a representação dela.

Sonho, tenho pesadelos terríveis. Pesadelos às avessas que interrompem a realidade. Momentos de paz que me alimentam a consciência. Preferia a angústia constante, preferia enlouquecer. Acordo e lá está ele.

Esgotado, as vezes penso nele. A litania, agora, virou canção vazia. E ele? Quem é ele? Agora durmo mais, não me incomodo mais tanto com ele. Estamos juntos, ainda bem.

Pesadelo. Acalmo quando acordo e lá está ele.

Agora somos só nós mesmos. Pensamos somente em nós mesmos. Não canto mais as lembranças de fora. Durmo bem mesmo em sua presença. Quando ele está dormindo as vezes sinto medo. Conversamos muito, mas também quando silenciamos não é mais desconfortável.

Ele é tudo que tenho pra sempre.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

orvalho

-Por que dizes isso para mim?
-Estou falando porque sei. Do fio mais fino do tempo viemos, seremos tudo de mais breve.
-Não acredito em ti!
-Pois não deverias perder tempo lamentando o percurso, acabas por perder o teu fim.
-Fim? Então não vês que nascemos para o ardor das mais fortes paixões?
-Tens razão. Quão breve nos são, a vida e as paixões. O tempo de um suspiro.
-E o perfume, não sentes?
-Ah, como sinto, caro aos mais felizes de vivê-los!
-Então amanhã...
-Amanhã não havemos, há um tempo de luz que jamais verás.
-Quando?
-Por que não ficas quieto e sente o calor? Novamente, terás feito nada além de lamentar.
-E esse calor, o que é?
-Não é bom?
-Gosto. Sinto como se fosse espalhar-me.
-Êxtase liquefaz. Iremos com os primeiros raios mais fortes.
-Como brilha! E como é perfumado!
-Serena!
-Sereno.
-Da beleza da alvorada aos espinhos de nossa mãe.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

lua profética

Dos lábios a mais doce e cruel seiva
sorrisos nervosos do gozo proibido
avisto, precipício as avessas, me atiro
ao alto, profecia de êxtase e agonia.

Teu leite nos enche de lunatices
posso ver-te inteira e desejosa
tua clara face deliciosa
e a máscara negra do precipício

quinta-feira, 15 de maio de 2008

sonho de pó

De sonhos e outras coisas invisíveis.
Quando percebi que estava sendo seguido não tive medo como das outras vezes. Sabia que era ele e sua presença não incomoda mais. Como poderia? Ele já não me é estranho e de alguma forma sempre estivemos juntos.
Todos os dias passo por essa rua. Nunca me entreguei ao cansaço visual da repetição. Para mim ela está sempre diferente. Como quem procura novos detalhes a cada novo encontro com uma obra de arte sempre a vejo diferente. O belo não se cansa de ser explorado, é fonte inesgotável de novas leituras, inclusive para a mais grostesca delas.
A rua. Gosto dela especialmente em dias de chuva como hoje. A chuva reorganiza os elementos da obra. Cada qual em sua devida posição, as bancas de frutas, jornais, a garçonete no café, o barbeiro na barbearia, o guarda de trânsito na chuva mesmo. Além do mais, a chuva limpa a visão do observador assim como o envolve em atmosfera que influencia na leitura da obra. Adoro a chuva. E como já disse, ela nos empurra mais depressa ao nosso destino imediato, sigo então para o canto da tela ao qual pertenço.
Bom dia Rita, um expresso grande, por favor.
Vejo através do vidro da porta que meu amigo parou no fiteiro do outro lado da rua. Tenta se proteger da chuva enquanto fuma um cigarro.
Tenho uma grata sensação de dever cumprido ao tomar uma xícara de café em jejum. Acho na medida certa, se desperta o meu corpo ainda sonolento, não lhe agride a leveza de estado, aos poucos sinto que estou de fato começando um novo dia. Eu bebo o café e ele fuma. Olha em minha direção. Caminho em direção a porta do café. Mesmo quando está às minhas costas sei quando está me mirando, sinto o seu olhar. A presença dele deixa o ambiente com qualquer coisa de mais grave, pesado, como se tudo se movesse mais rapidamente e o volume dos sons aumentasse.
Agora, num pequeno entervalo em que a chuva cessa, a fumaça que sai de sua boca ganha contornos mais nítidos e uma cor branco-cinza mais forte no ar limpo e claro que a chuva deixou. A fumaça equilibra a tela, espaço entre nós, cada qual numa extremidade, com os olhares simétricos. Fumaça espelho que corta as coisas invisíveis.
Após tantas vezes me havendo seguido, acostumei-me ao espelho e, dependendo da luz do dia, faço-me sombra dele ou faz ele minha sombra. Ou ele é sempre sombra, sempre pó.
Os sonhos são atraídos pela energia da mente. Acordados, atraímos pela matéria invisível do coração. No final, as duas coisas estão extremamente ligadas.
Agora que o café cumpriu seu dever é hora de passar a vista no jornal. Hum, melhor mesmo era não ter tomado café hoje, assim as notícias estariam menos consistentes, melhor seria se fosse sonho, notícias de pó.
A manchete fala qualquer coisa sobre uma notícia que já é estampa desde o século dezoito. São números. Estatísticas quase são feitas de pó, estão no campo da abstração, não?
Bom, o que importa na matéria é a velha notícia concreta de que no Brasil 10% detêm 75% da riqueza do país. Isso desde o século 18. Números rígidos. Distribuição disciplinada e linear, essa nossa. Melhor voltar ao pó. Procuro minha sombra.
Ele continua lá, sempre uma mesma distância equilibra nossos corpos. Às vezes me pergunto quem atrai quem ou se há um centro comum. Sei que das coisas invisíveis que o separam de mim muitas lá foram postas por nós mesmos.
Por entre o pó dos sonhos atravesso sempre eu sua direção sem que nada me impeça. Mas é que nos sonhos a matéria invisível que há entre nós dois é fruto de minha imaginação.
Sonho com a matéria do jornal.
Fecho os olhos, faço força e os números ganham vida. Mudo as estampas. O café estimula e a fumaça de minha sombra se embaraça com o papel do jornal. Parece uma tela feita só de nuvens cinzentas onde vez ou outra surge um número que ri de mim. Minha sombra ri também. Acabo cedendo. Rio também.
Não, Rita, só o jornal por favor.
Hoje prefiro a sonolência do corpo para o caso de um encontro com o pó.
No jornal, vejo as notícias um tanto embaçadas. Hoje sem chuva, o sol castiga mais a visão que tenho do outro lado da rua. Atravesso apertando os olhos e fazendo força para encontrá-lo perdido entre a fumaça do seu cigarro. Que tela é essa?
Queria estar dormindo, mas sei que não estou. Nos meus sonhos ele nunca vira pó.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

a valsa


Definitivamente a hora mais prazerosa do dia. Não porque chego ao fim de mais um dia de trabalho e portanto estou livre de obrigações, posso fazer nada ou qualquer coisa, mas porque de fato gosto dos finais de tarde. Em minha cidade melhor hora não há. Recife ganha novas cores no final do dia. E ares, novos ares que conduzem num som mais calmo a correria da cidade. O amarelo escuro parece fazer o movimento mais calmo. Eu ando mais devagar no final da tarde. Moleza solar quando o sol esfria. Parece que o trânsito esquece a corrida para contemplar em silêncio as suas margens.
Cidade de margens, nem sempre nos viramos ao leito.
Carros pisando em ovos. Paramos para ver o movimento da paisagem.
Hum, sei que as cores do dia também mudam no resto do mundo. Mas são outros sóis, são outros mundos. Imagino pólos sem sóis ou sóis que não findam. Sairia do trabalho sem quebras no dia. Preciso sentir a ruptura do tempo. Aí eu páro e recomeço ou mudo a marcha.
Mas voltando aos sóis de minha cidade, às vezes acho que desaceleramos porque hipnotizados.
Vontade de tomar uma cerveja. Deixo outros planos de lado. Tenho que fazer algo importante ainda hoje. Páro para ver as pessoas caminharem lento enquanto bebo uma cerveja. Penso em imagens. São várias tardes em quadrinhos.
Será que gosto mesmo dos finais de tarde ou serão as noites, mérito da continuidade, que lhes tomam o lugar magistralmente?
Não há quebras entre as tardes e as noites. São como dois amantes que se encontram para uma única valsa, frágeis momentos que lhes escapam contrariamente, fio tênue entre a matéria e a não-matéria de um e outro.
Peço outra cerveja, caminho em direção ao marco zero da cidade, espero o momento da dança. Miro o leito da valsa. Penso em tudo que ainda preciso organizar quando chegar em casa. Encosto o corpo no pára-peito que separa praça e rio. Está tudo muito amarelo e se não fosse minha respiração mais forte por conta da caminhada poderia ouvir os passos da valsa.
De olhos fechados penso que logo será noite. Terei que ir para casa. O encontro amoroso. Ele prepara a chegada dela, meia-luz, pede silêncio às margens, ela chega e atrás dela os primeiros holofotes. Não demora muito e já se vão os amantes. Resta outa luz. Resta a saudade do breve, o prestes a acontecer. Nós restamos sentindo, como penetras, o perfume de um baile que não é nosso. Nos convidamos. Noites iluminadas em quadrinhos.
Lembro-me da cerveja que esquentara enquanto trocada pelo espetáculo. A próxima sorvo em goles rápidos. As pessoas voltam a caminhar depressa. Costas às margens. Apresso-me conforme. Tenho poucas horas para arrumar tudo antes que meu vôo parta.