sábado, 21 de março de 2020

2020, o diário do mundo. 1.


1.

Clarinha corria pelo quintal da casa que não lhe pertencia, mas que serviria como lar por tempo indeterminado. A grama estava verdinha e bem aparada e havia um caminho de pedras que escondia um mundo inteiro de seres minúsculos por debaixo delas. Assim pensava Clara, a mais nova, sete ou oito anos, enquanto pulava pelas lajotas contando uma a uma e calculando os saltos para que os pés não tocassem a grama.

Guilherme, ou Francisco, tenho quase certeza que era Guilherme seu nome, sentia o sol aquecer seu corpo deitado no batente da varanda e, ainda que tivesse mostrado resistência a essas férias forçadas e à casa que não era sua, como se espera de todo pré-adolescente com seus onze ou doze anos, pensou que não seria de todo mal ficar um período longe da escola e de todos os conflitos, testes e tarefas que considerava desnecessários e inoportunos e que não passavam de perda de tempo. Sentiu quase alívio, mas manteve a cara amuada para todos os efeitos e continuou no mesmo canto sem dar cabimento para muita conversa.

Maria Lúcia, professora ou veterinária, não tenho certeza, guardava as compras e arrumava o quarto que dividiria com seus dois filhos de agora em diante sem pensar muito em si ou no resto do mundo. Guardava e arrumava, contando os itens e fazendo cálculos rápidos sobre a duração do estoque ou sobre como organizaria as refeições. Estava pausada da vida e tinha esperanças de retornar em breve ao ponto justo da pausa, quando voltaria a ser Maria, a professora ou a veterinária, sem economia de pensamentos, questionamentos e energias, sendo vida que não percebe viver..

Maria, Clarinha e Guilherme eram três mundos isolados juntos. Três fronteiras ligadas pelo afeto, mas separadas por uma percepção completamente diferente do que seriam aqueles dias, ou meses, vivendo em confinamento naquela casa que ironicamente não era, mas não poderia ser mais deles do que qualquer outra moradia. 

Clara era o país da leveza, cultivando sem perceber toda a poesia que a infância permitia explorando cada pequeno recanto do jardim e imaginando mil e um roteiros percorridos entre o oitão da casa que ligava o portão da frente ao fundo do terreno. Guilherme se isolava e mal se movia, mas trazia o mundo de fora pelas notícias e relatos dos conhecidos e dos desconhecidos que lia no celular, e Maria Lúcia tentava ao máximo se manter alheia de tudo para seguir no automático cuidando do funcionamento do que seria seu limitado mundo e das crianças.

Guilherme contava com frágil preocupação sobre a quantidade de doentes mundo afora, o colapso econômico e o esvaziamento das mercadorias nos supermercados do país e do mundo e às vezes lia em voz alta trechos dos textos pouco confiáveis que encontrava em suas redes sociais. Maria Lúcia sabia que grande parte era verdade, filtrava partes, imaginava que ainda outras podiam ser piores porque sempre acreditou em subnotificações sobre tudo no mundo, mas mudava de assunto, falava que o almoço estava pronto, reclamava da bagunça e relembrava que todos deviam fazer sua parte para manter a casa em ordem. Clarinha puxava sem sucesso uma brincadeira com o irmão, falava dos bichos do jardim e propunha um banho de mangueira. Estava calor, tanto calor que por mais que Maria não quisesse pensar em nada, o calor pensava por ela e virava tema em sua cabeça. O que fazer com esse calor todo? Clarinha abraçava a mãe. O carinho da menina era tão verdadeiro quanto aleatório. Era do tipo que dizia “eu te amo” e distribuía beijos e carinhos a qualquer momento e independente de cabimento. Era amor expresso que equilibrava o que não se falava na casa. Guilherme tentava interpretar os abismos à sua volta como se ele próprio não fosse parte do desmantelo, achava graça da mãe negando os fatos e se divertia com a desinformação da irmã mais nova.

O dia seguia, como seguiriam muitos outros ainda, com as bordas sensíveis daqueles três a se tocarem como num equilíbrio torto que faz um segurar o outro, como escultura estranha que nos admira não desmoronar. Cada qual que buscasse ou a realidade, ou o sonho ou a certeza de que não vale a pena realidade ou sonho.

Exceto quando já era tarde da noite e as crianças dormiam e Maria Lúcia se permitia ser algo além da integridade por um fio, como quem segue dando corda para que o relógio daquela frágil sobrevivência não parasse, para se vivificar, sentir as dores, os medos, e pensar na vida além das refeições e arrumações, chorar pelas incertezas e sorrir com ternura pelas trelas carinhosas de Clarinha e pelos boletins informativos de Guilherme, que se fazia quase crível fortaleza. Maria Lúcia, enfermeira ou veterinária, chorava até dormir sentindo que não havia fronteiras dentro daquele quarto e que no dia seguinte ela voltaria ao automático até que tudo passasse e ela voltasse a ser Maria.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

III. O Pescador


Aquele que tem as solas dos pés mais polidas porque durante toda a vida se atrita na areia e no mar.

É também o mais bonito porque feito com a força das toras da jangada e a maciez lodosa que em seu casco insiste em grudar.

Perigoso também é o pescador que faz  firmar forte o coração na terra, mas não sabe se vai voltar.

Hipnotizante e lustroso como a água-viva e que quando pisa no chão é a própria brisa, como quem soprasse o que sabe que vai queimar.

Tem um não-sei-o-quê de divino como se fosse a sereia que um dia pisa a terra carregando consigo todos os mistérios do mar.
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Foto: água-viva ou caravela (nunca sei) na ilha de Itamaracá que segundo uma amiga @sandrakx parece a bolsinha da barbie kkkk
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sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

II. A detetive


Ela sempre viveu de recolher vestígios,
pequenas pistas de afeto não explícito,
que depois de grandiosos pela lupa de vidro,
eram dispostos em forma de coração.

A presença ali recém sentida,
o rastro do perfume,
a fotografia dos objetos em prontidão,
o choque do toque de segunda mão.

Depois, na parede do seu quarto,
os pedaços duros dos achados
se montavam justos e aquecidos
e desfibrilavam o peito solitário.

Como quem vive dos pedaços do outro,
que jamais se desfecha para ela entrar.




Arte: gostaria muito de saber o autor da ilustração (se alguém souber fazer o favor de avisar 😍)
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quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

I. O jardineiro



O jardineiro que colecionava dezenas de primaveras contava que bom mesmo era tratar as angústias pelo cheiro das antigas temporadas.

Fechava os olhos e respirava fundo, mas só sentia a tristeza seca dos perfumes que lembram a felicidade passada.

Queria ao menos a melancolia da saudade.
Mas, nada.

Engolia difícil e aguava o solo e a cara.

Tentava sorrir pensando em construir no perfume de agora
uma lembrança mais terna para resgatar na próxima época de flora.







Arte: Mucha




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domingo, 17 de novembro de 2019

O que te fez lisa na vida?


Depois de um dia inteiro rolando rio abaixo, o seixo, bolado, perguntou à pedra bruta:
- por que tão carrancuda? O dia tá azul e o sol tá cristalino. Que tal curtimos juntos esse nado?
- por que te expões assim com a cara lisa? Perde até a graça. Eu mesmo não gosto de gente dada.
- dada?
- sim! E feliz por nada.
- ah, obrigado! Eu tento ser feliz mesmo, mas a gente acaba levando umas pedradas...
- pedradas?
- sim. Porque me jogo de cara!
- lisa...
- e arranhada! É do atrito.
- por que te jogas, então?
- ora, por nada. Talvez pelo choque das coisas que me tocam forte, e que me consomem, até que eu diminua tanto que condense num pequeno ponto final todo amor que um dia tive porte.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Desajustado

Quem poderá ter o peito doce e a mente em perfeito estado?
Uma vez um coração cortês, o juízo na certa se faz desajustado.
Queria a razão poder com o espírito do amparo.
No fim das contas ou se é são ou se é afável.
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PS: a foto é de quando me perdi e me achei num mixirical 🍊 e fiquei abestalhada dos olhos, boca e nariz ❤

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Luta

De onde vem a força que faz aquilo que não se acredita ser a se mover?
Que sorte a vida se provar, por insistência, valer um tanto mais que os revezes do sofrer!
Se morre sempre pra amanhã renascer.
Se sucumbe ao que agora é certo, duro e líquido para pronto se refazer.
Ou apenas se recebe as doses justas que imunizam o que se propõe permanecer.
E permanece cheia de anticorpos num corpo alerta que luta contra seu próprio ser.