- Bolacha do mar, quantos anos você tem?
- Como assim? Não entendi.
- Quanto tempo já viveste?
- Viver, sim, estou viva agora. Mas o que é significa tempo mesmo?
- O caminhar das coisas, passado, presente, futuro. O dia, as horas...o que fazes?
- Engraçado, confuso isso tudo. Eu faço o que faço agora.
- Mas e o teu tempo? Tuas coisas, teu navegar?
- Ah, sim, navego sempre. Eu vou e volto e paro sempre com o mar.
- Então! Isso tudo é o tempo que faz!
- Entendi. O tempo. E o viver?
- Ah, sim, vivemos enquanto o tempo passa.
- Será? Não sei. Nunca contei...
- Mas tem as horas.
- E dá igual?
- Como assim?
- As tuas horas passam igual ao tempo que vivo pra mim?
domingo, 19 de novembro de 2017
domingo, 29 de outubro de 2017
ignição
- aonde vais com essa bandeira? livra-te logo desse peso!
- mas é que acredito na beleza do meu lugar, acostumei aqui.
- pois eu sou livre nação, acredito que a beleza está em todo lugar...
- mas e o amor, o amor cria raízes, não é?
- a força do amor está justamento no movimento, na liberdade de seguir. Assim como tudo mais...
- que tudo?
- tudo, ora! queres viver ou não?
- ah, quero muito! mas não sei como...
- salta, voa, pára, toma impulso e voa mais longe!
- mas você ainda esta aqui...
- sim, aqui, mas também já estou lá...
- de que maneira?
- a vontade de seguir já é meio caminho andado.
- e a outra metade?
- vira a chave, intrépido amor, e vive em combustão!
- mas é que acredito na beleza do meu lugar, acostumei aqui.
- pois eu sou livre nação, acredito que a beleza está em todo lugar...
- mas e o amor, o amor cria raízes, não é?
- a força do amor está justamento no movimento, na liberdade de seguir. Assim como tudo mais...
- que tudo?
- tudo, ora! queres viver ou não?
- ah, quero muito! mas não sei como...
- salta, voa, pára, toma impulso e voa mais longe!
- mas você ainda esta aqui...
- sim, aqui, mas também já estou lá...
- de que maneira?
- a vontade de seguir já é meio caminho andado.
- e a outra metade?
- vira a chave, intrépido amor, e vive em combustão!
diálogo-poema a quatro mãos, com Hamilton de Oliveira.
obrigada, amigo!
sábado, 7 de outubro de 2017
O voo
Na primeira noite ela sonhou que dançava de um jeito tão leve e tão entregue que parecia que em seus saltos flutuava no ar.
Logo depois sonhara que patinava numa pista tão lisa e tão cheia de curvas que escapulia dando piruetas no ar.
Na sequência sonhou que corria tanto e tão rápido que perdia o controle e não podia evitar de voar.
Hoje ela vive acordada.
Dança, patina e corre de vez em quando,
Nas poucas horas em que resolve pousar
Logo depois sonhara que patinava numa pista tão lisa e tão cheia de curvas que escapulia dando piruetas no ar.
Na sequência sonhou que corria tanto e tão rápido que perdia o controle e não podia evitar de voar.
Hoje ela vive acordada.
Dança, patina e corre de vez em quando,
Nas poucas horas em que resolve pousar
domingo, 10 de setembro de 2017
ferrolho
A gente era pobre, mas nem passava pela cabeça.
Aquela janela, ah que incrível janela!
Eu passava horas fingindo que eu me mostrava pro mundo.
Ou que o mundo se mostrava por ela.
Que bonita era aquela janela!
Hoje lembrando dela, pensando bem, era bem pobrezinha a janela.
Não tinha nem moldura, nem vidrinho, nem nada.
Mas era bonita a danada da janela.
Quando à noite se fechava eu pensava...
se ela me guardava dos perigos lá de fora,
se ela separava a noite imaginada daqui de dentro,
se ela logo revelava o dia de amanhã.
Hoje pensando bem, como era rica aquela janela!
A gente era rico, mas nem passava pela cabeça.
E era pela fresta daquela janela que eu tudo podia,
para dentro e para fora, todo medo e todo amor.
Aquela janela, ah que incrível janela!
Eu passava horas fingindo que eu me mostrava pro mundo.
Ou que o mundo se mostrava por ela.
Que bonita era aquela janela!
Hoje lembrando dela, pensando bem, era bem pobrezinha a janela.
Não tinha nem moldura, nem vidrinho, nem nada.
Mas era bonita a danada da janela.
Quando à noite se fechava eu pensava...
se ela me guardava dos perigos lá de fora,
se ela separava a noite imaginada daqui de dentro,
se ela logo revelava o dia de amanhã.
Hoje pensando bem, como era rica aquela janela!
A gente era rico, mas nem passava pela cabeça.
E era pela fresta daquela janela que eu tudo podia,
para dentro e para fora, todo medo e todo amor.
sábado, 5 de agosto de 2017
flâneur
Resolvi tomar um atalho pelo caminho mais lento,
no contratempo da vida em massa que passa em desatento.
Escolhi o caminhar caprichoso, o gole preguiçoso,
que é pra valer o gosto do agora e fazer durar cada gozo.
Eu vou ficar só de flâneur vendo teu passo louco.
Pressa perversa que a vida avexa, me deixa quieta
que meu tempo é outro.
Decidi durar mais o meio enquanto vivo,
meio ao tumulto, o enquanto isso.
Vou ralentando o que for preciso,
cada segundo, eu não desperdiço.
Eu vou ficar só de flâneur vendo você correndo.
Fissura cega que a vida esquiva , me deixa quieta
que eu estou vivendo.
quarta-feira, 26 de julho de 2017
Peregrina
- Ai, estou tão cansada. O que faço agora?
- continua a caminhar, ora!
- mas caminhar pra onde? Qual direção seguir, se há tanta coisa feia e tristeza por aí?
- Ah isso é verdade, tem muita dor por esses caminhos todos aí.
- pois é, é tanto sentir que me parte o coração...
- você quis dizer que te toca o coração.
- isso!
- e muitas lágrimas deves derramar ao sentir tanta emoção.
- mais uma vez, correta.
- então preferirias não sentir, blindar o coração?
- não!
- então continua a caminhar que tá certa a direção!
- continua a caminhar, ora!
- mas caminhar pra onde? Qual direção seguir, se há tanta coisa feia e tristeza por aí?
- Ah isso é verdade, tem muita dor por esses caminhos todos aí.
- pois é, é tanto sentir que me parte o coração...
- você quis dizer que te toca o coração.
- isso!
- e muitas lágrimas deves derramar ao sentir tanta emoção.
- mais uma vez, correta.
- então preferirias não sentir, blindar o coração?
- não!
- então continua a caminhar que tá certa a direção!
terça-feira, 6 de junho de 2017
Terra seca
Hoje eu acordei mais cedo e automaticamente reguei minhas plantas.
Suspirava enquanto as regava na esperança que, de alguma forma, pudesse respirar por elas também.
Minhas plantinhas estão secando. Não há terra fértil que dê jeito, nem sol que as alimente, nem água que mate tanta sede.
E eu que já gostei tanto do sol e que já pisei tanto nesse solo úmido de vida e já suspirei de alegria, agora apenas morro de sede.
Está tudo apodrecendo. De um podre sem vida e sem frutos.
Se ao menos houvesse semente, pequena que fosse, resto de vida, quem sabe eu regaria de novo, quem sabe crescerias novamente, vistosa e fértil, sedenta de sol, de água, de frutos, de vida.
Mas insistes em morrer. E agora já não há mais nada em mim para te oferecer, querida plantinha! Nada. E eu que achava que tu respirarias por mim...
Suspirava enquanto as regava na esperança que, de alguma forma, pudesse respirar por elas também.
Minhas plantinhas estão secando. Não há terra fértil que dê jeito, nem sol que as alimente, nem água que mate tanta sede.
E eu que já gostei tanto do sol e que já pisei tanto nesse solo úmido de vida e já suspirei de alegria, agora apenas morro de sede.
Está tudo apodrecendo. De um podre sem vida e sem frutos.
Se ao menos houvesse semente, pequena que fosse, resto de vida, quem sabe eu regaria de novo, quem sabe crescerias novamente, vistosa e fértil, sedenta de sol, de água, de frutos, de vida.
Mas insistes em morrer. E agora já não há mais nada em mim para te oferecer, querida plantinha! Nada. E eu que achava que tu respirarias por mim...
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