quinta-feira, 13 de junho de 2019
VI. O jantar
Precisei buscar umas coisas no mercado. Optei por ir à feira livre. Respirar outros ares não impregnados dos nossos seres que fazem vapores proibidos. Rua, calçada, banca, gente inocente dos verbos por nós proferidos. Não pude disfarçar o sorriso. Percebi que teu cheiro estava comigo. Teu? Sorri de novo. Nossos indivíduos. Meu cheiro muda contigo, alquimista. Comprei tudo que era preciso. Mais gente. Olhares que me julgam e acertam o meu mais proibido. Duvido. É que gosto de caminhar mesmo quando não há motivo. Melhor, caminhar é o meu motivo, mas às vezes o pouso é preciso. Senti saudade do ar opaco do nosso recinto. Volto apressada com a sacola com as coisas do jantar que com muita certeza não será possível. Não antes do imprescindível.
Afeto
De passagem, longe de chegar:
- fica um pouco, meu bem!
- ah, desejo ficar a eternidade que couber nesse momento.
- então desejas ficar mais tempo?
- o tempo físico, que parece pequeno, quanto mais vivido, mais perto de ser o tempo do pra sempre.
- ou se esgota ou é pra sempre...
- o tamanho da nossa noite não tem esgotamento.
- mas amanhã já partes...
- a partida não destrói as paralelas das nossas horas mais intensas. Seguiremos e ficaremos, pois amanhã serei outro a caminhar pela estrada. Terei em minha linha o tempo construído daquele momento.
- ah, mas me dói o apego, como não carregar os instantes com uma porção de lamentos?
- sim, os lamentos escorregam em espirais do pensamento, esvaziando o passado e o presente, te roubando retratos, borrando toda beleza vivida. Melhor não elegê-los.
- sim...
- nutre aquilo que te faz mais pleno, mais vivo e mais vibrante. Trata com carinho e orgulho teus momentos. O afeto tem uma densidade diferente que não se perde no tempo e se faz constante num espaço latente. Deixa afetar. Bombeia pro pensamento.
- deixo. Afeto. Afeta.
- fica um pouco, meu bem!
- ah, desejo ficar a eternidade que couber nesse momento.
- então desejas ficar mais tempo?
- o tempo físico, que parece pequeno, quanto mais vivido, mais perto de ser o tempo do pra sempre.
- ou se esgota ou é pra sempre...
- o tamanho da nossa noite não tem esgotamento.
- mas amanhã já partes...
- a partida não destrói as paralelas das nossas horas mais intensas. Seguiremos e ficaremos, pois amanhã serei outro a caminhar pela estrada. Terei em minha linha o tempo construído daquele momento.
- ah, mas me dói o apego, como não carregar os instantes com uma porção de lamentos?
- sim, os lamentos escorregam em espirais do pensamento, esvaziando o passado e o presente, te roubando retratos, borrando toda beleza vivida. Melhor não elegê-los.
- sim...
- nutre aquilo que te faz mais pleno, mais vivo e mais vibrante. Trata com carinho e orgulho teus momentos. O afeto tem uma densidade diferente que não se perde no tempo e se faz constante num espaço latente. Deixa afetar. Bombeia pro pensamento.
- deixo. Afeto. Afeta.
terça-feira, 11 de junho de 2019
V. Ebulição
Rega as flores da tua pele, lavra com tuas unhas, abre teus poros, deixa brotar cada fio, transborda tua lava.
O que te nutre por dentro te esparrama por fora e semeia o mundo a tua volta. Gera tudo. Gera vida e te faz vibrar.
O resto é calor acumulado, choque das tuas partes quando se enquadram, eletricidade. És tu e somente tu sendo reator(a) da chama toda.
segunda-feira, 10 de junho de 2019
enchente
Eu me lembro de pensar no absurdo como uma poeira densa que cobre tudo,
apagando os contornos das nossas certezas todas,
nos calando a boca diante do indizível mais impossível,
distorcendo o mundo pelas lentes dos piores seres,
oprimindo nossa pele, nossa fé, nossos amores,
fazendo arder os olhos com o pó vil da maldade.
Acontece que choveu muito nessa madrugada.
Chuva forte que limpou toda poeira do céu,
varreu as ruas, drenou corações afogados, desaguou esperança,
limpou nossas pupilas
e nos deixou em festa,
perplexos com a beleza que a liberdade da verdade nos dá.
apagando os contornos das nossas certezas todas,
nos calando a boca diante do indizível mais impossível,
distorcendo o mundo pelas lentes dos piores seres,
oprimindo nossa pele, nossa fé, nossos amores,
fazendo arder os olhos com o pó vil da maldade.
Acontece que choveu muito nessa madrugada.
Chuva forte que limpou toda poeira do céu,
varreu as ruas, drenou corações afogados, desaguou esperança,
limpou nossas pupilas
e nos deixou em festa,
perplexos com a beleza que a liberdade da verdade nos dá.
sábado, 1 de junho de 2019
IV. Vapor
Já te falei do vapor que cozinha as coisas todas ao nosso redor, meu amor.
Da neblina fina que te faz uma cortina mostrando o vermelho opaco da tua cor.
Nuvens impressionistas que dividem teu feixe em camadas e me confundem a figura pintada com ardor.
Não te alcanço. Fecho os olhos. Te contorno. Até chovermos translúcidos, limpando-nos as vistas e deixando o ar incolor.
Da neblina fina que te faz uma cortina mostrando o vermelho opaco da tua cor.
Nuvens impressionistas que dividem teu feixe em camadas e me confundem a figura pintada com ardor.
Não te alcanço. Fecho os olhos. Te contorno. Até chovermos translúcidos, limpando-nos as vistas e deixando o ar incolor.
sábado, 25 de maio de 2019
III. Barro
E depois de nada falarmos, no barro molhado buscamos o alívio da massa que tempera o vapor.
O sol poente, posto do lado de dentro, descansa insolente, alheio ao endereço destino do seu calor.
E nós, trepidantes agora tépidos, sobreviventes das nossas próprias intempéries, entardecemos até mudarmos de cor.
O sol poente, posto do lado de dentro, descansa insolente, alheio ao endereço destino do seu calor.
E nós, trepidantes agora tépidos, sobreviventes das nossas próprias intempéries, entardecemos até mudarmos de cor.
quinta-feira, 23 de maio de 2019
II. Verbo
E o que se faz desse laço forte e preciso não sei dizer e me custa entender o que dizes.
Não são palavras nem sílabas mas os sons sentidos da brisa quente que irradias.
Da tua boca as formas todas que superam o verbo comunicam o que eu pressentia.
Sinestésica conversa da língua franca que apenas em nós, ali, habita.
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