domingo, 7 de julho de 2019
Quando aceitei olhar nos teus olhos
Sementeira essa vida inteira que brota dos teus olhos redondos como dois xaxins,
castanhos e fibrosos,
suspensos e guardados pelas mesmas telhas cuidadosamente empilhadas por mim.
Resta a rega, a poda, a luz do dia e da vida,
pra te fazer brilhar as pupilas e derreter tudo mais em mim.
terça-feira, 2 de julho de 2019
VIII. Sereno
Naqueles dias de beira de estrada, de pausa necessária, o sereno temperava tudo quando amanhecia.
Frágeis horas que filtravam as nossas cabeças naquele pouso sem mobília.
Queria que aquela morada impossível, a ceu aberto, fosse infinita.
Queria a estrada sem despedidas.
Sentia apertar no peito aquilo que não seguiria.
Outras beiras, outros pousos, outros encostamentos. Ficaremos mais um dia.
Pensei em dizer tudo que sentia. Fazer promessas, te segurar forte, me apegar àquela moradia.
Afasia. Da minha boca saíram ideias outras contrárias ao que pretendia.
Das ideias restaram nossos corpos quentes do calor do dia.
Os corpos calaram. Amanhã serenaremos logo cedo, deixando pra trás tudo que foi aquela estadia.
Frágeis horas que filtravam as nossas cabeças naquele pouso sem mobília.
Queria que aquela morada impossível, a ceu aberto, fosse infinita.
Queria a estrada sem despedidas.
Sentia apertar no peito aquilo que não seguiria.
Outras beiras, outros pousos, outros encostamentos. Ficaremos mais um dia.
Pensei em dizer tudo que sentia. Fazer promessas, te segurar forte, me apegar àquela moradia.
Afasia. Da minha boca saíram ideias outras contrárias ao que pretendia.
Das ideias restaram nossos corpos quentes do calor do dia.
Os corpos calaram. Amanhã serenaremos logo cedo, deixando pra trás tudo que foi aquela estadia.
sexta-feira, 28 de junho de 2019
Simplesmente coração
Não vim aqui pra ter razão,
até mesmo porque essa nunca me foi convincente.
Passo os dias, e as noites principalmente, explicando à mente que os sentidos da face têm mais razão.
Não sei o que seria de mim sem os buracos da cara,
olhos, ouvidos, boca e nariz,
a darem vazão às enchentes que vêm de dentro,
encantamentos.
A mente definitivamente não comporta o que transborda da nascente.
Talvez queira me dominar sorrateiramente, mas hei de ser apenasmente coração.
sexta-feira, 21 de junho de 2019
VII. Febre
Já tentou diminuir uma febre sem se deixar curar?
Cortar displicentemente o medicamento que afasta a mazela, pausando seu efeito, não se deixando são ou mal por inteiro, mas administrando o que te te faz viver e morrer por dentro?
Assim te envolvo, me afasto, me entrego e te nego, dando pausas àquilo que me consome o corpo e a alma que é pra não deixar escapar, a ti e a mim, ligeiro.
Fico e corro pra equilibrar nossas faces, sublimes e grotescas, gozo e apatia, até o dia em que não tivermos mais anticorpos que nos mantenham vivos um do outro.
terça-feira, 18 de junho de 2019
Players
Tive uma conversa séria comigo mesma e cheguei à conclusão que somos muito diferentes.
Ninguém cede, ninguém quer ceder, ninguém se entende.
Pra além da teimosia, temos argumentos sólidos e quentes, cabeça e coração persistentes.
Como num jogo de xadrez com o espelho, nós duas, eu que me xeque, as rainhas que se matem.
Quem se atreve?
Haveremos por um fio tenso enquanto mantivermos o empate técnico.
domingo, 16 de junho de 2019
Te encaminho
Caminha-se junto quando se combina a passada pela mesma estrada,
Se arrefece no outro as intempéries,
Se dói na pele a pedra e o calo da outra pele,
Se divide as beiras descansadeiras,
Se passa o gole da garrafa aliviadeira,
Se encosta no que juntos fazem ninho,
Se contempla a beleza que o olho outro captura,
Se renova a sede do caminho a cada amanhecer.
Se encaminham um no outro,
Se encaminham para um e para o outro.
Se arrefece no outro as intempéries,
Se dói na pele a pedra e o calo da outra pele,
Se divide as beiras descansadeiras,
Se passa o gole da garrafa aliviadeira,
Se encosta no que juntos fazem ninho,
Se contempla a beleza que o olho outro captura,
Se renova a sede do caminho a cada amanhecer.
Se encaminham um no outro,
Se encaminham para um e para o outro.
quinta-feira, 13 de junho de 2019
VI. O jantar
Precisei buscar umas coisas no mercado. Optei por ir à feira livre. Respirar outros ares não impregnados dos nossos seres que fazem vapores proibidos. Rua, calçada, banca, gente inocente dos verbos por nós proferidos. Não pude disfarçar o sorriso. Percebi que teu cheiro estava comigo. Teu? Sorri de novo. Nossos indivíduos. Meu cheiro muda contigo, alquimista. Comprei tudo que era preciso. Mais gente. Olhares que me julgam e acertam o meu mais proibido. Duvido. É que gosto de caminhar mesmo quando não há motivo. Melhor, caminhar é o meu motivo, mas às vezes o pouso é preciso. Senti saudade do ar opaco do nosso recinto. Volto apressada com a sacola com as coisas do jantar que com muita certeza não será possível. Não antes do imprescindível.
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