sexta-feira, 12 de junho de 2009

uma outra coisa

- Finalmente, que queres dizer?
- Já disse, não consigo outras palavras...
- Mas não entendi o que disseste.
- Ah, mas é porque não disse tudo...
- Então fala!
- Estou pensando...como é mesmo que digo isso...eu sei mais ou menos o que é, não tem assim uma forma... como chama?...que agonia!
- mas é o quê, substantivo abstrato?
- Não, não, é bem concreto...tá aqui em minha cabeça... bom, bom...
- É ruim?
- Não...também não sei se é bom...tu não sentes também?
- Ah, e como diabos vou saber!
- Já sei! Ah, agora eu sei...
- Fala logo!
- Não dá. Ainda preciso inventar um nome.

sábado, 6 de junho de 2009

sonhos opacos

sonhos opacos naquele quarto de sobrado
no andar de cima, teto sem forro, deito.
uma luz amarela entre mim e as telhas
a mesma luz que da rua olho em outros quartos
penso nos sonhos alheios e suas camas
saudade de minhas horas, do acalanto das telhas
gosto da luz que não basta, da opacidade do ar,
pensamentos turvos infinitos, opacos
da janela, a minha, a rua opaca
da rua, a janela, de outros, opaca
entre aqui e lá, a opacidade do ar
partículas que criam milhões de formas

veio a chuva
limpou tudo
o que antes era um sonho opaco
agora é a transparência do real.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

prólogo



Tempestade, meu amor!
Sou forte pois trago o instinto e a luta dos meus ancestrais. Juntos lutamos contra mim mesmo. Sorrio da minha razão que se perde em meus sonhos onde há tanto mais terror mas nada me faz temer. Abro-te as portas!
Abro milhões de portas de milhões de casas minhas. Tudo que vivi e não sabia está aqui. Esse é o meu palco com o cenário que eu quiser. Nos enfrentemos aqui. Os Deuses e a platéia estão comigo.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

amante do inconsciente

Se se sonha muito mais do que se mantém acordado, ou quando acordado mantém-se quase sempre sonhando, quem de fato está vivendo, o médico ou o monstro?
Invertido os papéis, deu-se que o universo desconhecido e sombrio da minha mente, ou se preferes a minha alma, dominou-me a ponto de ultrapassar a concretude do meu consciente. Sonhos. Sirvam como as únicas e verdadeiras experiências do meu ser!

terça-feira, 7 de outubro de 2008

minha flor


-mas que mania, dona noite, por que insistes?
-porque és insípida, manhã, e ninguém te ouve
-ah, novamente o gosto dos que sonham noturno?
-não inodora! dos que gostam do cheiro das flores.
-ah! falas das flores... celeidoscópio solar!
-verdade de cor, jardins que dormem...
-mas como dormem se quando mais brilham?
-ah, meu lírio, claro como o sol, a noite desabrocham!

e em jardins alheios por passeios noturnos
tive mais sonhos perenes, de todo perfume,
sem nome, sem tempo, sentido somente,
sem vista nem tato, as flores apenas.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

onírico dionisíaco


Tudo começou com um sonho bom. Sonha, acorda, pensa no sonho o dia inteiro. Ah, tive um sonho!

Depois tive outros sonhos e partes de sonhos. Sonhos quebrados, repetidos e repartidos em série.
Vou trabalhar cansado. No retrovisor do carro vejo minha cara de sono. Porra de sonho!
Primeiro turno, não dá pra pensar no almoço. Hã?! Meio da tarde e com óculos ou sem óculos meus olhos ardem, os números se misturam, faço os mesmos cálculos exaustivamente. Se fecho os olhos mais devagar durmo aqui mesmo. Tiro os óculos, cáculos, gravata e pestana. O que foi o que?

Happy hour? Preciso dormir, droga! Não produzi nada. Amanhã terei que chegar mais cedo, refazer os cálculos e preparar a merda da apresentação. Só uns tragos.
Apesar de economista, tempo pra mim nunca foi dinheiro. Demoro bem mais que uma happy hour. Animo um pouco com a conversa de bar, meu sono até que passa, lembro do sonho. Na verdade não se trata do sonho e sim de sonhar. Sonhar o tempo todo. Sonhar e acordar e pensar no sonho e no que não é sonho. Agora mesmo, tô acordado, bem acordado e não estou com sono. É bom! Estar acordado é bom. Mas se não fosse a leve sensação de embriaguez, tanto menos. Aliás, é essa sensação que aproxima a gente do estado do sonho. Quando a gente bebe entra nesse estado onírico dionisíaco, vira artista, poeta, franciscano, pode tudo que quiser. Como num sonho. O bêbado é como um cara que sonha acordado, sabe que é sonho e ainda escreve e dirige o roteiro. Estar bêbado é melhor que estar sonhando!

Volto andando pra casa. Prolongo o prazer da expectativa de uma longa noite de sono. Lembro da conversa do bar. Lembro do sonho. Esqueci os cálculos. Sob minha perspectiva onírica dionisíaca começo a misturar trechos. Minha memória começa a funcionar como um sonho, cheia de quebras. Mas foi um sonho? Preciso descansar. Meu sono voltou.

Vejo minha cara no espelho do banheiro. A mesma cara de sono, só que agora suja de sereno e com um leve sorriso nos lábios. Embriagada e embaçada de sono. Ou de sonho.


Sonho que tá tudo pegando fogo. Queima tudo e a fumaça me sufoca fazendo arder minha garganta. Acordo com sede. Droga de uísque. Merda de sonho! Tô cansado, preciso dormir mais um pouco. Na janela da cozinha minha cara refletida é de sono e sem graça. Idiota!

Sonho com o bar. O que conversei com meu sócio sobre a apresentação do projeto. Conversei? Ou foi só no sonho. Os cálculos não estão prontos. Tudo de cabeça, apresentação genial, clientes convencidos.

Acordo atrasado e novamente cansado. Demoro alguns minutos pra juntar todos os trechos. Hoje pode ser ontem? Sinto como se não tivesse dormido nada. Prefiro nem ver minha cara no espelho. Isso só pode ser um pesadelo. Volto pra cama.

domingo, 29 de junho de 2008

litania de um preso

Depois desses anos todos não sei dizer se realmente nasceu um sentimento entre nós ou se simplesmente nos acostumamos um ao outro. Mas, de uma forma ou outra, sei que agora ele me importa. Talvez se nosso exílio tivesse sido sob outras circunstâncias, quem sabe.

Também não lembro quando comecei a dormir tranquilamente ou mesmo quando consegui não pensar em sua presença, fosse por alguns minutos, pela primeira vez. Os primeiros anos foram realmente difíceis.

Sei que deixamos tudo para trás. Cada vez esqueço mais. De início me exercitava, revia em memória seus nomes, suas fisionomias, gestos, encontros que tivemos. Revia exaustivamente. Repetia a ordem das lembranças. Montava e remontava. Sentia mal se deixava faltar um pedaço de lembrança. Litania de prisioneiro.
Sei que ele tinha as lembranças dele também. E era isso que nos importava no início. Fugíamos de pensar um no outro. Estávamos ali e precisávamos nos ignorar. Não dormia. Não relaxava nunca. O silêncio incomodava mas também não havia assunto.

Estava enlouquecendo com certeza. O problema é pensar tanto, toda hora, pensar, pensar. Pensar no passado. Desespero. E agora? Pensar na saída. Pensar que não tem saída. Não dá para chorar, não consigo chorar. E ele, tem ele aqui o tempo todo. O melhor seria enlouquecer de vez. A loucura talvez me libertasse da angústia.

Não enlouqueço nem paro de pensar. Pensar na angústia. Que solução, por que não enlouqueço? E ele? Ele também é minha angústia ou a representação dela.

Sonho, tenho pesadelos terríveis. Pesadelos às avessas que interrompem a realidade. Momentos de paz que me alimentam a consciência. Preferia a angústia constante, preferia enlouquecer. Acordo e lá está ele.

Esgotado, as vezes penso nele. A litania, agora, virou canção vazia. E ele? Quem é ele? Agora durmo mais, não me incomodo mais tanto com ele. Estamos juntos, ainda bem.

Pesadelo. Acalmo quando acordo e lá está ele.

Agora somos só nós mesmos. Pensamos somente em nós mesmos. Não canto mais as lembranças de fora. Durmo bem mesmo em sua presença. Quando ele está dormindo as vezes sinto medo. Conversamos muito, mas também quando silenciamos não é mais desconfortável.

Ele é tudo que tenho pra sempre.