terça-feira, 25 de março de 2008

o velho e as laranjas


Separei um coletivo de coisas pra levar, tudo inútil. Fica tudo. Essas necessidades que inventamos por aqui, lá não fazem o menor sentido. Bagagem inútil, vergonha. Gosto que me olhem nos olhos. Alguns olhares carregam a tristeza do mundo inteiro, me tira o ar mirar esses olhos. Para não derramar o gelo que me vem n'alma preciso do toque que reprime o choro, comigo é o oposto. Gosto de abraçar as pessoas.
É madrugada um pouco fria, sinto um desejo enorme de tocar a face deste homem um pouco velho, sozinho e sem nada que passa por mim. Eu vi seus olhos. Gelou minh'alma. Dou um longo suspiro fechando os olhos pra não derramar o gelo. Queria tocar sua face mirando seus olhos. Cansados e tristes. Olhos de velho. Quando vejo um velho lembro do velho Murilo.
Meu velho, Murilo velho, tem os olhos tristes, cansados e velhos. Sempre toco seu rosto, às vezes derramo por ele, às vezes com muita pena de mim por não ser ele, por não carregar toda a tristeza do mundo em meus olhos. Sinto pena de mim por ter pena dele. Dispenso a bagagem pra ver Murilo, seus olhos me matariam. É para lá que estou indo agora.
Velho Murilo mora muito distante de mim. Ele não se importa de viver distante. Distante de onde? Agoniam-me questões de tempo e espaço, preocupações inventadas, os olhos do velho Murilo não entendem. Dirijo o dia inteiro e parte da noite para visitar meu velho uma vez por ano. Vou pensando no cheiro das laranjas e na casa úmida do meu velhinho.
Velho Murilo sorriu a vida inteira, mas seus olhos sempre foram tristes. Quando muito pequena ainda, sentia vontade de tocar seu rosto e lhe encher de carinhos. Nessa época eu não pensava no cheiro das laranjas. Chupava laranjas o dia inteiro e o cheiro delas ficava em mim.
Meu pai era menos velho que o velho Murilo e meus irmãos eram mais velhos do que eu. Todos riam das graças do meu preto velho, menos eu. Ele era capaz de fazer tudo com quase nada. Ágil e criativa nudez da simplicidade.
Ô faquinha pequenininha que rodava rápido a laranjinha descascando que nem pião! Depois quer que corte no meio ou quer tampinha que quando termina ainda sobra o laranjão?
O seu anzol era o menorzinho, de se rir pensando em tal peixinho que iria lhe morder...anzolzinho mágico, nervoso e eficiente, imbatível, imã dos peixões mais grandões. Mas o lago nem era grande, era um laguinho de água marrom. Laguinho mágico, imprevisível criador de monstros e bichos de todas as cores. Eu era pequenina e o velho Murilo pescava para mim.
Meu pai falava de coisas sérias com seu Murilo. Os rodapés, os enxertos, os currais, as corais, o gado, o laranjal, a horta e o pomar. Velho Murilo mesmo quando sério sorria e mesmo sorrindo tinha os olhos tristes, tristes e velhos.
Eu ainda era pequenina e o velho Murilo falava sério comigo. Contava das vaquinhas, cantava igual aos passarinhos, fazia cara feia imitando quando perseguia uma cobra do mau, descascava as laranjinhas, do pomar toda fruta me trazia, mas da horta se ria por eu não gostar. Ensinou a tirar minhoca do buraco com um pauzinho, íamos pescar. O seu cavalo era grande, mas aprontava o cavalinho para eu montar. O dia inteirinho o velho Murilo ficava pra lá e pra cá, entre as conversas sérias com outros velhos como meu pai e as outras que vinha me contar.
Já sinto o cheiro das laranjas. Nessa estrada falha de terra de tantos desvios e entradas diferentes nunca precisei me achar. Nunca perdi o caminho. O cheiro e a saudade gostosa das coisas do meu velho sempre me guiaram até lá.
Velho Murilo agora tem os olhos velhos, porém alegres. Está mais velho do que nunca, mas seu sorriso está descansado. Meu velhinho parece aliviado. Ai, que sorriso gostoso, que saudade de quando menina e o tempo era um tempão, numa só tarde éramos índios, caçadores, pescadores e peões. Todo pé dava fruta, toda fruta era doce, a natureza se rendia ao meu velho Murilo que era forte e grande e me protegia, menina e pequena. Hoje me sinto menina e pequena novamente. Tenho vontade de lhe tocar o rosto, mas acho que agora é o oposto. Desvio o olhar. não quero lhe tocar. Velho Murilo não entende meus olhos tristes e sorri novamente.
Meu velho, me diga, só com o cheiro das laranjas como vou te encontrar?

segunda-feira, 17 de março de 2008

êxtase musical

Do lado da cá, entre tantos anônimos, espero as cortinas subirem. Ainda nem começou e já temo pelo seu fim.
Que horas são?
Ah, deliciosa espera! Atraso bem-vindo, se demora a começar mais tarde há de terminar! Apaixonei-me por um músico.
Vai começar, novamente tenta puxar assunto meu vizinho.
Assim me rouba parte do êxtase dessas horas. Prefiro o silêncio. Trancar-me em devaneios, sonhos que pelo menos agora julgo justos para mim. O palco respalda todos os outros mundos que alguns dizem impossíveis, mundos mais felizes e belos, mundos em que a imaginação coreografa, dirige, pinta e borda como quiser.
Hã? Vou apagar meu vizinho do cenário.
Sou uma apaixonada convicta! Pela música e pelo músico. Confesso que não sei o que veio primeiro. Segui a música, mas quando percebi não podia mais perder o músico de vista. Sou funcionária para vê-lo tocar. Passo o dia quase não trabalhando de tanto esperar. Quando ele sai de casa, estou chegando do trabalho e já corro para lhe acompanhar.
Meu vizinho agora fala gratuitamente para me perturbar. Sem virar o rosto, quero que fique claro meu aborrecimento, digo que não concordo. Não, a música não é a melhor invenção do homem. A música nem é invenção do homem! Abuso!
Esse último por causa das palmas resumiu-se a um uuuso. Melhor, uma discussão agora me roubaria a outra parte do êxtase.
O problema são suas mãos. Ágeis namoradas que dançam conscientes do feitiço que podem causar. Instrumentos encantados. Serpentes dançarinas que chocalham hipnotizadas pelo seu tocar. Sorriso zombeteiro, estou apaixonada pelo artista que já não sei mais conceituar. Se é mágico ou dançarino não sei ao certo, mas agora convicta que encantada primeiro pelo músico depois por seu batucar. E ele nem é bailarino, mas posso deixar de ser funcionária para lhe acompanhar.
O danado mudou meu cenário. Agora segura conchinhas do mar. Chocalha, choacalha, namoradas salientes, novamente me faço naja, me balanço em ondas imaginárias, subo ao palco para dançar. Convicta pela música e depois pelo músico.
Muito interessante isso, diz meu vizinho.
Molhado, respondo secamente.
Deita o mar no palco bem devagar e novamente muda de lugar. Apaixonei-me por um zombeteiro, quando ele sorrir, percebo o perigo, em apuros deixo ele zombar.
Vai terminar. As cortinas, minhas cúmplices, marcam a hora em que o deixo e volto a esperar.
Apaixonada convicta. Antes era a música, agora é somente ele. Meu músico.

sábado, 8 de março de 2008

Uda


Resta muito pouco. Não falo do tempo, mas das razões de ser. Hoje, para mim, solidão é não ter mais cúmplices. Não vejo sentido quando me falam da beleza que uma longa vida pode ter por conta das experiências que os velhos passam aos jovens. Eu quero dividir, compartilhar. Onde estão as testemunhas comuns a mim? Meus irmãos morreram. Não gosto de conversar sobre o passado com as pessoas do presente. Seria bom reviver muitas coisas durante uma tarde inteira numa conversa com os amigos. Tocar juntos. Falar do trabalho e dos filhos. Lembrar a primeira serenata...Meus amigos morreram. A primeira serenata nem foi para Uda, minha querida Uda. A última cúmplice. As lembranças, não interessa se boas, são cruéis. Sorrisos ansiosos por um bom conto do passado, egoístas! Vivam suas vidas! Eu gosto de conversar com Uda mas não falamos muito. Uma irmã querida costumava vir sempre. Pode-se estar no presente quando em companhia de alguém que viveu o mesmo passado que a gente. Ela nunca mais veio. Testemunha apagada. Ô Uda, vamos! Já estou pronto. Todas as tardes vamos juntos à missa. Acho que espero o dia inteiro pelo fim da tarde. A caminhada até a praça nos pertence. Uma realidade autêntica. Quase setenta anos juntos. Juntos à praça! Uda, essa camisa é a mesma de ontem, Alice me trouxe duas novas ontem. Alice é uma de minhas filhas. Tenho quatro. Não sei porque Uda agora inventou de se fazer de lesa. Deve achar engraçado encenar todo esse esquecimento só para irritar. Como eu disse, gosto muito da caminhada vespertina rotineira. Passo por casas e lembro de pessoas, lembro de fatos. Lembro tranquilo, pois ela entende do que falo, ela sabe das casas, sabe também das pessoas. A história das coisas é importante. Ela sabe. Mas nos últimos meses não falamos muito. Tem algo de melancolia em minha Uda, está cansada de nossas conversas, prefere não lembrar e até finge que não se lembra. Mas também devo dizer. Ô Uda, não se reconhece mais esse bairro, nem as pessoas e as casas quase todas já são outras. O que mais amo em minha Uda é que ela está sempre sorrindo. Sorriso gostoso. Sorriso cantado, parece marchinha de carnaval. Não há uma filha sequer ou neta herdeira da serenidade de minha Uda. Que remédio é este que você está tomando? Não vai tomar nada! Eu sou médico, portanto eu mesmo receitaria algo se precisasse. Você não tem nada, está ótima. Isso são manias dessas meninas. Minhas filhas acham que não percebo esse alvoroço todo. Teimam em levar minha Uda pra lá e pra cá, especialista disso e daquilo, é isso que lhe está fazendo mal. É por isso que anda meio assim, é só chateação. Acaba que nunca mais cuidou de suas rosas ou cantou suas marchinhas preferidas. O jardim também morreu e a terra seca não me diz nada. Tenho medo que minha casa crie vontade própria e mude também. O cerco se fecha. Mutantes sorridentes. Mas eu também não sei para que servem essas pílulas! Eu tomei pílulas? Não fui eu! Foi?! Eu exerci a medicina durante toda a vida. Hoje ela não está mais em mim. Meus pacientes quase todos já se foram. Mas espreito tudo e guardo o que acho calado. Mas com minha Uda não permito! Ô Uda, meu Deus, não tome essas coisas, vá se arrumar, deixe de conversas e não me venha com esquecimentos que você não está gagá! Eu não posso com as coisas do mundo de hoje. Quem meus netos pensam que são? O jornal nacional parece mais o nacional de Marte. De novo a solidão. Penso que a loucura é quando não há mais testemunhas que confirmem as suas lembranças. Junto com a lucidez de Uda vai minha última possibilidade de compreensão. Novamente às conversas egoístas do mundo sobrenatural. Melhor cuidar dos passarinhos. O bom seria ter passarinhos desde a manhã até a hora da missa. Uda agora só canta. Tento pensar que canta as marchinhas intencionada de algo. Canta por nada. Canta durante a caminhada à praça. E quando não está cantando olha para o nada. Seguro forte sua mão, lhe abraço apertado, agora seu sorriso me assusta, peço, peço a minha companheira de vida: por favor não me deixe só!

terça-feira, 4 de março de 2008

paralelepípedos


Encontrei o poeta sozinho numa madrugada de começo de semana. As madrugadas da segunda ou terça têm um sabor peculiar, uma euforia proporcionada pelo sentimento de transgressão. Ou vai ver que não era nada disso, eu já havia bebido um bocadinho e ELE era o poeta. Mas poeta sozinho pela noite é mais normal que surfista tomando açaí na praia. Mas calma. A princípio ele não era poeta, nem era nada. Estava lá e pronto. E eu estava um pouco bêbada e achei que ele era um pintor ou coisa assim. É que estávamos na rua. Uma rua de paralelepípedos molhados. Ou vi isso num filme? Já notou que as ruas sempre estão molhadas nos filmes? Acho lindo isso, até porque aqui tá sempre seco. Mas nessa noite estava molhado. Sei disso porque as luzes dos postes, que estavam especialmente amarelas, estavam brilhando no chão molhado. Ah, parecia pintura...ou filme! A música eu acho que não lembro. Sei lá, essa coisa de memória seletiva, a música era ruim. E tive medo quando pensei que poderia ele ser um fantasma, um fantasma solitário de um grande artista de outrora...opa, mas fantasma não fuma! Ou fuma? E também estava sozinha, preferi achar que não. Ele fuma e deve ser filósofo. Acho que está tarde. Com certeza deveria ir embora. Não consigo ouvir essa música! Mas o que será que ele faz afinal? É curioso como se comporta o ser solitário. Posso com um certo ar arrogante: humm, estou aqui sozinha tomando um drink e não preciso de ninguém, ou algo como: até Buda invejaria tamanha serenidade! Ou posso estar com a maior cara de concentração de cirurgião enquanto me pergunto o que danado aquele outro solitário lá faz quando não está triste assim. Mas que será, que será...será que pensa em nada como eu? Calculo o consumo da cerveja de forma que beba rápido os primeiros dois terços e assim não esteja nunca quente. Um doido reconhece outro. É um triste! Diz, poetinha, já que olhas tanto para mim, és por acaso oftalmo? Professor? Não sabe? Ah, vê se me esquece! Já é tão madrugada que está perdendo a graça transviada, vou projetar a partida. Queria ser pintor para guardar as madrugadas. Retrataria essa noite com todas as luzes, paralelepípedos molhados de amarelo e pessoas desconhecidas, menos o meu companheiro solitário, pois como explicaria sua presença em meu quadro? Sabe de uma coisa, obsessão de bêbado é o cúmulo da falta de criatividade e amanhã ainda perco o dobro de tempo tentando me perdoar, espero que o triste reconheça o outro de fato. A conta ao garçom que pergunta o meu nome. Prazer, o seu? Não entendi, mas um educado reconhece o outro. Antes de ir, junto ao troco um pequeno bilhete. Ele era, de fato, poeta. E também falava de solidão:




"Ana

De um ponto
em que não se ia
nada mais
que solidão,
que agonia,
havia luz
e luz acendia,
como se incendeia
mil areias
sobre mim.
Sobre as veias
soterradas
de um coração
com teias,

de um ponto
que não engana:
ana."



Para meu amigo, poeta desconhecido. Muito obrigada.






sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Abajur



Dorme, dorme, dorme, ai que quero dormir de uma vez! Como é possível minha voz de choro quando sequer tô falando de verdade? Só tô pensando, ora bolas! No meu medo. Meu pensamento tem voz de choro. Nesse medo de todas as noites. Vou pedir a meu pai que deite comigo. Eu demoro e fico agoniada. Seguro sua mão e fico agoniada porque sei que ele não vai esperar até sempre. Eu sempre demoro a dormir. A culpa é da janela do meu quarto que balança. Faz cineminha das coisas da rua na parede. Das luzezinhas, milhões de luzezinhas coloridas que piscam quando pisco os olhos. Da cama que tem vazio embaixo. De tudo. Somente de manhã faço as pazes com meu quarto. A noite fica tudo estranho e o chato mesmo é ser a última a dormir. Pai, quando é que tio Alberto vem nos visitar? Quando? É um alívio quando tem visita a noite. Eles ficam até tarde conversando na sala e não dormem antes de mim. Ou quando é final de semana. Os pais dormem mais tarde nos sábados. Hein pai? Ele vem quando? Não sei filhota, acho que na sexta feira. Quem é que está fazendo oito aninhos na sexta feira, hã? Aninhos não, anões. Estou ficando uma velha medrosa. Aniversário não vale. Queria um convidado por noite. Ei! Ainda não dormi! Ele pensa que sou boba mas eu sei que ele me engana sempre. E ainda desliga o abajur antes de sair. Nem ligo. Rapidinho chega amanhã quando durmo. Agora estou mais velha e meu pai viajou. Eu gosto de suas viagens. Ele sempre traz um presente bonito pra mim e eu posso dormir com minha mãe todos os dias. Quando durmo com minha mãe provoco as luzezinhas de propósito. Pisco os olhos com força como desafio. Mas fico com pena logo em seguida pois elas parecem mais tristes e fraquinhas quando não tenho medo. Assim não tem graça. Vou pensar em outra coisa. Gosto de pensar nas coisas da escola. O ano tá terminando e o melhor é poder levar todo o material pra casa. Tem tanta coisa na minha pasta. Todos os meus trabalhos. Depois minha mãe guarda e não adianta nada. Mas também as férias demoram muito e fico com saudades da escola. Esse ano, vou sentir saudades de Vinícius, o menino mais bonito da minha sala. Vinícius é ótimo pra pensar antes de dormir. E aí não pode ser pensamento de choro. Mas ele é pequeno e nunca pode ser meu par nas festinhas da escola. Será que ele vai crescer nas férias? Amanhã eu penso nisso. Não disse? Minha mãe já guardou minha pasta. Nas férias eu viajo e é maravilhoso. Na casa dos meus avós eu não tenho medo de nada. Não durmo no meu quarto! O quarto da minha prima é tão diferente do meu, queria morar aqui. Nas férias tenho mais tempo pra pensar em Vinícius antes de dormir. Ai, que saudade da escola. Minha mãe encapa meus livros novos e eu ajudo. Quando chego de viagem gosto do cheirinho da minha casa. Depois fica igual. Vinícius não cresceu mas eu contei minha viagem pra ele mesmo assim. Pai, me ensina matemática amanhã? Acho engraçado quando meu pai vira professor. A letra dele fica horrível no quadro mas ele sabe toda a matemática do mundo. Sempre sabe. Outra noite, tentei provocar as luzezinhas mas elas não apareceram. Pensei em outras coisas. Pai? Desliga o abajur quando sair, tô com sono!

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Dr. Jekyll e Mr. Hyde

Mal resfriara, abriu-a com impaciência. A semana inteira à distância para aumentar o brilho desse momento. A primeira taça traz a feliz promessa do início. A noite começou. Sente a dorzinha fina nas bochechas provocada pelo primeiro gole. Deciliosos beliscões invisíveis. Ai, como essa música é bela! Será que ainda não havia reparado em tamanha genialidade? Poucos ultrapassam o limite da sensibilidade comum, talvez eu possa compor algo assim também. Algo para a beleza da vida e para Marília. O mundo das coisas bonitas, da sensibilidade e do meu amor por Marília. Definitivamente isso tem mais importância que a agenda inteira da semana. Mais uma taça. Agora a temperatura está ideal e a partir de então a impressão da linearidade do sabor. Vou por uma segunda garrafa pra resfriar. Essa semana farei tudo diferente. Quebrar a rotina como fazem os entendedores da vida. Os gênios, os melhores poetas e escritores. Farei com que meus compromissos sejam desmarcados, um dia só. Posso ligar pra Marília. Tenho agora a razão dos sapientes ao meu lado. Sinto-me no paraíso dos seguros. Ela não poderá negar. Não será preciso muitos argumentos, está tão claro! Ah, minha querida, se soubesses como te amo! Mas como poderia se até então só mostrara o falso de mim, um eu irreal ou pelo menos a parte menos importante de minha existência. Ah, que incômodo sentimento saber que ela é somente conhecedora do que em mim há de mais desinteressante. Um metódico e comedido médico. Reservado, de uma serenidade quase arrogante, higiênico e extremamente competente. Não! Sinto uma espécie de agressão, injustiça cometida por mim mesmo, agonia de desfazer esse mal entendido. Na próxima consulta será bem diferente. Mostrarei que também sou paixão. Que tenho outra voz, outro olhar. Tocarei seu rosto, seus cabelos. Quebrarei todas as constantes possíveis. Será delicioso sentir seus olhos surpresos e felizes por sua descoberta. Devo ser direto. Seguro de meus atos e intenções. Uma mulher como ela certamente gostará de um homem que tome as rédeas da situação, que não lhe dê tempo para refletir. Estou ansioso. Essa segunda garrafa parece ainda mais saborosa. Como é bom poder repensar tantas vezes como será amanhã. Como será finalmente meu grande dia com Marília. Acho que nem estou tão ansioso assim. Delícia estar aqui agora pensando nela, em como vai ser. Ainda bem que é domingo. Amanhã. Sinto um entusiasmo atlético, estou ótimo! Por que complicamos tanto quando tudo é tão simples? Vale a pena mesmo essa vida, tão linda! Acho que ficarei acordado até amanhecer. Faz tanto tempo que não ouvia essa música. Suave os sons e cheiros da madrugada. Talvez deva dormir um pouco. Provavelmente acordarei bem disposto. Terei sonhos felizes com certeza. Amanhã, Marília. Amanhã continuarei a viver essa realdidade de hoje. Não permitirei que essa atmosfera arrefeça, a única forma inteligente de viver o mundo. O sentimento. A sensibilidade. Amanhã...Dr. Jekill acordara na mesma hora de sempre, o mesmo banho demorado e meticuloso, a falta de apetite matinal usual, passou a vista no jornal, checou os e-mails e foi para o consultório. Antes, colocou o lixo nos depósitos seletivos do prédio. No de vidros, três garrafas vazias de vinho.

pra começar


Percebi que tinha muitas coisas. Muitos trecos, objetos inúteis, muito trabalho, muitos dias sem graça, muitos compromissos forçados, muitos amigos chatos e até falsos, muita dor de cabeça, dezenas de comprimidos, centenas de planos frustrados, tantos amores, MIL fantasmas... Resolvi jogar tudo fora, ora bolas! De cada coisa quero nada ou no máximo a unidade. É, o melhor mesmo é viver à retalho. É a lei do espaço, espaço vazio pra ser ocupado. Esvaziar pra encher, se o leitor prefere. Sinto-me vazia e feliz! Pois o oco gera a expectativa e não dizem que a fome é o melhor tempero? Pois então! Sinto a ânsia de experimentar o próximo sabor. Será objeto exclusivo de meu deleite o próximo retalho. Uma cor, um sabor, um café, um cigarro, um livro, um amigo, um jantar, um suspiro, um amor. Os excessos são alimento da loucura, obsessão pra mim é falta de criatividade e escravidão. Nada é sempre o mesmo.
Pois então, são outras impressões e palpites sobre esse nosso mundo concreto e invisível, preto e branco e colorido pelas vistas um tanto míopes de uma pequena romântica tentando convencer os pessimistas. Meu amigo Jorge, o romantismo não morreu!