domingo, 24 de abril de 2016

afasia

Minha cabeça dói de tanto tentar
face a face com o indizível tentando nomear.
Rói a esperança e a vontade de continuar.
Que diabos tu dizes que não sei escutar?
Que língua é essa cujos fonemas eu entendo
mas passo longe de decifrar?
Agora teu rosto me parece grotesco,
vomitando grunhidos sem cessar.
Resta, em vão, retrucar:
cala boca, fantasma, e vê se some no ar.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

a caixinha da bailarina


A menina bailarina guardava tudo em sua caixinha,
que ela abria com cuidado para o encanto não fugir.
Tinha um amor, e muitos sonhos,
que ela guardava bem ali.
Bem ali, ao lado da valsinha,
bailarina de resina, a pobrezinha.

A menina bailarina, prisioneira da caixinha,
fechava os olhos pra sentir:
a valsa, os passos, o tato, o rubor.
Sentia tudo e devolvia depressa,
encaixando a tampa na ponta dos pés,
a triste bailarina aprisionada.

Melhor seria se não houvesse.
caixinha, bailarina, o segredo da menina.
Mas quem haveria de ter, no mundo,
amor mais perfeito do que o da bailarina?



sexta-feira, 12 de junho de 2015

non, rien do rien, meu bem

Non, rien de rien, meu bem.
O pouco não agrada, mas nos encantamos com o tudo.
As enormidades nos enchem os olhos e o coração, não?
O amor chega grande e contagia tudo que há em volta.
A vida fica plena, cheia, gorda. É tudo um exagero.
Exagero de felicidade. Peito feliz, coração exagerado.
O problema é que todo exagero carrega o fantasma do nada.
O dia do muito é a véspera do pouco, non?
Acabou a festa? É domingo à noite? O amor acabou?
O oco é muito pouco para quem viveu o muito, obviamente.
A pausa musical é tão linda quanto angustiante.
Rien de rien. E respira que virão os próximos acordes.


domingo, 7 de junho de 2015

meu tempo não é agora


Não sei se já disse que tenho uma verdadeira paixão por aqueles pintores impressionistas do século XIX. Monet, Renoir, Cézanne, todos maravilhosos! Ou será o século? A paixão?

Renoir, o pintor da vida, como era chamado, bem que podia ser um amigo meu, primo,  irmão, compadre talvez. O ano é o de 1876 e me vejo perfeitamente bem, rodeada de amigos, dividindo uma conversa e algumas danças numa bela tarde de domingo. Ou sábado, ou não importa o dia. Eu era feliz!
                                                            Renoir, Le Moulin de la Galette, 1876.

Monet, me lembro bem daquele nascer do sol tão especial. Conversamos a noite inteira, sobre diversos assuntos, sobre a vida, sobre o mundo, amenidades. Época boa, onde as pessoas olhavam nos olhos, uns dos outros, conversavam e respeitavam os respectivos silêncios. Havia silêncios! Naquela noite/dia, voltei para casa com a melhor das impressões.

                                                            Monet, Impressão, nascer do sol, 1872.

Pois bem, o ano é de 2015, e não escrevo nada por aqui há um bom tempo. É que, infelizmente, diferente do que acha o poeta, meu tempo não é hoje. Ando descontente com o mundo, com as pessoas e seus hábitos, comigo mesma, com os jornais, com o mundo e confesso uma imensa inabilidade em lidar com essas coisas do agora. Por outro lado, sinto que a escrita me consola, me comove, me melhora. Então, meus amigo, vejamos no que vai dar. 

PS. Tenho saudades. Dos amigos que não tive e dos que tive. Dos poetas e pintores. Dos livros que li. Das alegrias e tristeza que já tive. Sofro de saudade aguda. Saudade o tempo todo. Estava com saudades de escrever aqui.


sexta-feira, 21 de junho de 2013

litania interrompida


Vivemos desde sempre entre insatisfações e angústias. Desde sempre, um probleminha aqui, outro logo ali; um dia difícil hoje, outro bem pior amanhã. A cidade está ficando impossível. Quanta insegurança, ninguém sai mais às ruas sem levar consigo um temor no peito e nos olhos. Dois filhos. Sei não, a educação não vai nada bem. Melhor cuidar da saúde, evitar o sereno, como dizia mamãe. E o trabalho. Difícil ter, difícil manter, mas o problema mesmo é chegar lá.

E continua, numa litania, num canto de tristeza: aqui, ali, rua, medo, ontem, hoje, há tanto tempo, filhos, educação, cansaço, corpo e mente nada sãos. Uma espécie de canto sitiado pelos assombros urbanos às nossas portas. E quando atravessamos a porta, para o desde sempre das ruas, só pensamos em voltar para o refúgio da cabana, quando finalmente podemos parar de cantar.

Mas hoje queremos cantar diferente, queremos sair das nossas fortalezas, queremos o canto alto daqueles que por tanto tempo dividiram, em silêncio, o mesmo temor. Tantos, muitos, milhares, a se reconhecerem e tomarem emprestadas as vozes uns dos outros. Que o nosso canto ensurdecedor afaste os nossos fantasmas de desde sempre. 

Quem sabe assim voltaremos a cantar em nossos lares.


Recife, 20 de junho de 2013.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Camila tem preguiça

Hoje Camila acordou com muita preguiça.
Preguiça da rua igual, banal, tal qual sempre foi.
Rua de feiura, de faróis que nos desviam e de olhos que se perdem.
Da gente toda com cara de Munch, a engolir desespero e fumaça.

Hoje a preguiça era tanta que Camila sequer abriu os olhos.
Afastou os fantasmas e se cobriu de corpo e alma.
Preguiça dos assombros lá de fora, os mesmos de sempre.
Bocas largas de bueiro, olhos esbugalhados de Goya.

Hoje Camila não saiu da cama; paralisia, é a preguiça.
Só mais uns pouquinhos, de minutinho a minutinho;
Sendo devagarzinho, sem pretensão de ser;
Voltou a sonhar, com as noites estreladas de Gogh.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

um convite ao coração selvagem






Mais que uma biografia da escritora, é antes uma sensível interpretação crítica e psicológica de sua obra. Se bem que no caso de Clarice escrita e escritora frequentemente se fundem tamanha peculiaridade do universo único e por que não íntimo que encontramos em sua obra. Clarice foi feita para a literatura, "já criança fabulava", e a literatura foi o alívio para sua inquietude onde pôde estar mais perto do coração selvagem, onde pôde ser Joana e não mais Clarice.






Em Clarice, Benjamin Moser, num trabalho de grande volume de pesquisa e de muita sensibilidade, além de analisar criticamente grande parte da obra da autora, nos faz mergulhar no universo introspectivo lispectoriano tanto da obra quanto da autora, afinal de contas ainda se trata de uma biografia, de maneira que nos deparamos com as epifanias mais clássicas da autora quase como se as estivéssemos compartilhando com a própria Clarice. As correnspondências de Clarice, expostas no livro em grande volume, nos aproximam mais ainda do reconhecimento de toda a essência de sua obra. Reconhecemos suas personagens e suas angústias na própria Clarice e automaticamente ou melhor, psicologicamente relemos sua obra.






Enfim, depois de Moser melhor mesmo é reler Clarice pois como a própria autora dizia, a sua obra ganhava com a releitura!